Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Artigos

O uso de jornais e revistas na preparação para o vestibular (parte II), por Ana Regina Bastos

Ano 1, n. 2, 2008

Autor: Ana Regina Bastos

Sobre o autor: Ana Regina Bastos é mestre em Geografia Humana (USP), professora assistente da UERJ (atuação no Departamento de Seleção Acadêmica, no Colégio de Aplicação e na Prática de Ensino de Geografia) e professora do Colégio Pedro II.

Publicado em: 29/09/2009

Dando continuidade ao tema abordado na coluna anterior, tratarei aqui de alguns dos cuidados que devem ser observados por docentes e discentes a respeito do uso de jornais e revistas na preparação para o vestibular.

Da mesma forma que os discursos científicos e literários, os textos jornalísticos constroem representações do real, a partir de vivências e experiências dos parceiros do discurso - autores e leitores. Sendo um resultado de escolhas, o discurso é sempre parcial, seja ele literário, científico ou jornalístico. Não há neutralidade no ato de produção e consumo dos textos: eles são ideologicamente informados. Tanto autor quanto leitor, portanto, constroem as representações do real, de acordo com dada concepção de mundo - com base em opção ideológica.

No caso do uso de textos de jornais e revistas na prática pedagógica, há que se considerar as posições diferenciadas das empresas jornalísticas. Nesse sentido, cabe a citação de um trecho de Demétrio Magnoli no livro O mundo contemporâneo (Editora Moderna, 1997): Realmente, política e ideologia estão presentes na organização de todo o noticiário, que não é "neutro" ou "objetivo". O jornal, ao contrário do que apregoa a teoria da objetividade jornalística, engaja-se na divulgação de uma concepção de mundo. Ele não é "espelho do mundo", mas um aparelho produtor de interpretações do mundo.

Levando isso em conta, toda atenção é pouca no uso do recurso no processo de preparação para o vestibular. Não se pode tomar como verdade absoluta os conteúdos presentes em jornais e revistas, ainda que eles sejam muito proveitosos no processo de formação do indivíduo, do ponto de vista da construção cidadã. Professores e alunos precisam entender que a base da construção do conhecimento não está no simples uso desses veículos. Eles são, simplesmente, um apoio importante na ampliação dos conteúdos, das competências e das habilidades inerentes ao processo educativo.

A utilização de jornais e revistas em aula é um recurso que ajuda o aluno a sistematizar seu "olhar" sobre os textos, de modo a obter o máximo de envolvimento e aprendizado. É preciso, porém, tomar alguns cuidados técnicos, e aqui me dirijo especialmente aos docentes, de forma a não desperdiçar uma atividade potencialmente rica e cativante, transformando-a em algo sem significado e com resultados pedagógicos pífios. O primeiro desses cuidados é o de verificar atentamente se o material possui relação estreita com a temática em debate. O objetivo é não submeter os alunos à leitura de um texto do qual apenas uma fração tem relação significativa com o conteúdo em pauta. É preciso verificar se a quantidade de informações, nexos e questionamentos são relevantes para os objetivos que estão sendo trabalhados. Atenção deve ser dispensada ao "foco" das atividades propostas. Elas não devem ser tão objetivas a ponto de se transformarem em módulo instrucional mecânico e desinteressante, nem "abertas" demais de modo que o tempo disponível se torne insuficiente. Um segundo cuidado técnico diz respeito à adequação da linguagem em relação aos alunos para os quais será proposta a atividade. Se necessário, deve-se fazer a adaptação do texto ou acrescentar um pequeno glossário para sua melhor compreensão.

Tomados esses cuidados, é importante lembrar que matérias de jornais e revistas podem servir a diferentes propósitos. Um procedimento interessante é organizar um roteiro de atividades a serem desenvolvidas a partir do material de leitura. É claro que esse roteiro dependerá dos objetivos que levaram à decisão pelo uso do material. No caso do texto de jornais e revistas servir como elemento de estímulo a uma aula, pode não haver necessidade de um roteiro, mas apenas de uma pergunta introdutória cuja resposta venha a ser obtida a partir do desenvolvimento da aula.

Esse tipo de texto também pode ser parte integrante do desenvolvimento do tema abordado ou, ainda, ajudar a encaminhar a conclusão do assunto, sob a forma de avaliação de aprendizado.

Há um outro aspecto que também merece atenção.  Nem sempre, na preparação para o vestibular, professores e alunos devem tomar as informações de jornais e revistas como objeto em si. O conteúdo veiculado não é, necessariamente, o objeto, nem o objetivo, para a elaboração de questões de provas dos vestibulares ou para aquelas que simulam as do vestibular, nem garante boas respostas dos alunos a essas questões. Quando o recorte de textos jornalísticos aparece nas provas como objeto, isso se dá mais para aferir competências e habilidades necessárias à continuidade dos estudos em nível superior do que para aferir conteúdos sofisticados. Além disso, é possível aparecerem trechos de jornais e revistas no suporte das questões de provas de alguns processos seletivos que são desnecessários e nada têm a ver com o comando das questões; são usados para "a prova ficar bonita", sem nenhuma relevância na cobrança.  Professores devem estar atentos para o fato de que o conteúdo de trechos jornalísticos apresentados nos suportes de questões pode ser um motivador, mas não mera ilustração, para o comando das questões. Estas devem ser elaboradas em sintonia com o seu objetivo de aferir conteúdos, competências e habilidades. Já os alunos devem estar atentos para o fato de que suas respostas às questões devem demonstrar tanto suas capacidades de interpretar, sintetizar, analisar, estabelecer comparação, criticar e tomar decisões, quanto seu domínio referido a um saber consolidado, desenvolvido no processo de ensino-aprendizagem.

Para finalizar, ressalto, mais uma vez, que o caráter de representação da realidade presente nos textos jornalísticos e os aspectos técnicos relacionados à prática pedagógica consciente merecem atenção. Para isso, não se pode deixar de lançar desafios à imaginação, à criatividade e à capacidade analógica, sob pena de limitar as potencialidades do recurso.

 

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