Revista do Vestibular da Uerj
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Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Clube de Leituras, uma viagem por mundos interiores, por Leila Medeiros de Menezes

Ano 5, n. 14, 2012

Autor: Leila Medeiros de Menezes

Sobre o autor: Leila Medeiros de Menezes é professora do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CAp-UERJ), onde coordena o Clube de Leituras Paula Saldanha. Graduada em Letras (Português-Literatura) e mestre em História, suas pesquisas relacionam-se com os seguintes temas: formação continuada de professores, história e memória, comunidade de leitores e alfabetização do olhar. Atualmente, também exerce na Universidade as funções de assessora da Sub-reitoria de Graduação e de coordenadora da Universidade Aberta do Brasil.

Publicado em: 24/04/2013

O Clube nos dá a oportunidade de viver muitas leituras, ele aproxima as crianças do livro e nos levar para outros lugares sem sair da sala. Fazemos lá grandes “viagens”. É um espaço de encontros, de dar asas à imaginação, de usar nossa criatividade. Viajamos nos livros e fora deles. Nesse espaço somos livres para viver nossas histórias e muitas outras histórias. (Texto coletivo do 4º ano do ensino fundamental, turma 1, Clube de Leituras, CAp-UERJ, 2007.)

Acredito que a epígrafe eleita para iniciar minhas reflexões pode justificar o título do texto. Falar de leitura é falar de uma relação íntima, muito particular, de descobertas e revelações; em especial, é falar de prazer. Tentarei, neste artigo, apresentar um pouco do trabalho no Clube de Leituras Paula Saldanha – sua filosofia, seus passos iniciais, suas experiências – e, quem sabe, deixar um convite para que você, leitor, participe também dessa viagem.

O trabalho com a leitura e seus desafios

Vivemos em um momento no qual os avanços tecnológicos invadem o imaginário infantil com propostas virtuais que roubam da criança o verdadeiro prazer de viver de forma livre e desimpedida a alegria do descobrir-descobrindo-se. Resgatar a dimensão interior das nossas crianças é urgente e necessário. Robotizar o que há de melhor em cada uma delas seria transformar o viver em um fazer pontuado de tédio.

Dar asas à imaginação não é fechar os olhos a verdades patentes, mas abri-los para o mundo interior, subjetivo. A essência do ser criança, portanto, está justamente em fazer do “faz de conta” uma “verdade” – o que nada mais é do que se apropriar da realidade para interpretá-la e vivê-la de forma intensa, transformando-a, a partir da criação de mundos e de personagens. É fazer. É brincar. É sentir. É tornar-se pessoa. É pura poesia.

As rodas de leituras permitem esse voo pela imaginação. Os assuntos são sempre variados, pois as leituras que entram na “ciranda” são de escolha dos leitores. Eles partilham suas descobertas e oferecem a possibilidade de acesso a outros leitores. É muitas vezes nesses momentos de compartilhamento que descobrem autores, que descobrem a poesia, que ampliam seus horizontes.

Trabalhar, nos momentos de interação pela leitura, medos e coragens, esperanças e desafios, buscas e descobertas, é estabelecer um diálogo com os autores. Viver o “prazer do texto” (Roland Barthes) ou descobrir a “poesia inexplicável da vida” (Carlos Drummond de Andrade) é viajar por muitos “mundos”, como as próprias crianças declararam no texto da epígrafe. E, cabe aqui uma ressalva, apesar de minha experiência se voltar basicamente para as séries iniciais, o trabalho com leituras já se tornou uma ordem na educação básica em todos os níveis. Daniel Pennac, em seu livro Como um romance, aborda esse descortinar de outros “mundos” que a leitura oferece em diferentes etapas da vida.

Primeiros passos na criação do Clube de Leituras Paula Saldanha

Costumo dizer que meu “chão” para ousar esse projeto foi a rede pública de ensino do município do Rio de Janeiro, onde atuei, em sala de aula, nos dois segmentos do ensino fundamental, por trinta anos. A semente do trabalho do Clube germinou no distante bairro de Cordovil, na zona suburbana desta cidade.

Foi lá que, em um período de silêncios e silenciamentos, quando as bibliotecas das escolas foram desativadas por força do regime militar, eu ousei apresentar às crianças e aos adolescentes o “perigoso” mundo da leitura. Não dispunha de um espaço próprio para as “viagens” que fazíamos, mas a escola nos oferecia um quintal com muitas árvores. Foi então que, abrigados pela sombra de um imenso flamboyant, viajávamos, sem sairmos de Cordovil. Produtivas e belas viagens! Profundas discussões. Estabelecemos vínculos de confiabilidade, respeito e parceria. Vivenciamos emoções.

Chegando ao CAp-UERJ, em 1978, trazia na “mala” uma experiência bem-sucedida. Continuava na rede municipal. Eram duas realidades diferentes, mas o trabalho e as respostas dos alunos apresentavam muitos pontos em comum, eram convergentes. Promover o diálogo entre essas duas realidades constituiu-se em um campo de investigação e de atuação bastante produtivo.

Em 1982, nascia no CAp-UERJ o Clube de Leituras Paula Saldanha. Eu tinha duas turmas da então 3ª série do ensino fundamental. O espaço da leitura era diário, mas dentro das quatro paredes da sala de aula. Em uma das nossas rodas, quando discutíamos liberdade, uma criança questionou-me: “como podemos falar em liberdade se nossas discussões são feitas dentro de um quadrado com grades?”. Referia-se às grades das janelas da sala de aula (estávamos no quarto andar do prédio). Perguntei-lhe qual seria a solução. Prontamente respondeu-me: “Fazer nossas rodas embaixo da grande mangueira do pátio”. Sugestão acatada por mim e por toda a turma. Reportei-me às rodas de Cordovil.

No dia seguinte, lá estávamos nós. Decorridas umas duas semanas, o entra e sai das pessoas passou a incomodar as crianças, pois a mangueira localizava-se logo na entrada do prédio. Mais uma vez, pedi-lhes uma solução. A resposta foi imediata: “Uma sala diferente. Sem mesas e cadeiras e sem as grades das janelas”. Comecei a batalhar por uma sala no andar térreo para ambientar nosso cantinho. Foi difícil, mas finalmente consegui. A etapa seguinte foi recorrer à professora de artes plásticas, parceira de série. Professora Celina Campos, imediatamente, aceitou o desafio. Elaboramos o projeto da nossa “floresta encantada”. As crianças pintaram as paredes, as cortinas e confeccionaram as almofadas, todas em formato de animais.

Finalmente, no dia 20 de maio de 1982, há quase 31 anos, inauguramos nossa sala ambiente. Espaço, até a presente data, considerado pelas crianças um cantinho mágico de discussões e descobertas. Espaço revisitado diariamente pelos adolescentes que por lá já passaram. O nome do espaço foi escolhido em votação pelas crianças. A jornalista Paula Saldanha, que até hoje prestigia nosso Clube, era apresentadora na época da TV Globinho, um programa infantil, em formato de telejornal, que incluía um quadro de contação de histórias.

Embora a experiência que vivi tenha me levado para a “construção” de um espaço físico, é importante salientar que o espaço das leituras se constrói dentro de nós, no prazer do encontro, no calor das discussões, na inquietação das buscas por descobertas. Ter um espaço próprio ajuda, mas não se faz fundamental.

Reflexões colocadas ao longo da caminhada

A trajetória do Clube nessas três décadas põe em pauta algumas indagações: qual seria a significação de um Clube de Leituras nas séries iniciais do ensino fundamental ou em qualquer segmento da educação básica? Qual seria a importância ou a significação de se desenvolver um trabalho com as histórias de leituras de jovens leitores e escritores? Qual seria a importância de um trabalho voltado para a alfabetização do olhar?

Uma resposta a tais indagações requer que se situem o ler e o escrever como início, o meio e o fim de um processo de troca, de participação e de intervenção no mundo. Trabalhar para que cada aluno se torne leitor-escritor competente tem sido o objetivo maior. Nas rodas, cada criança passa de mera consumidora a produtora, assumindo a autoria do seu fazer como um ator do político. O regime de trocas sucessivas com o mundo exterior fica estabelecido.

Cabe aqui ilustrar com o texto de uma ex-aluna, Gisele, hoje médica, escrito por ocasião da comemoração dos quinze anos do Clube de Leituras, no ano de 1997. Ele traduz, penso eu, o que aquele espaço vem significando para tantos alunos que por ele passam:

O Clube de Leituras foi um sonho que nós das turmas 311 e 312 de 1982 realizamos junto com a professora Leila. Ele foi, sem dúvida, o maior marco dos nossos quatro anos de primário no Colégio de Aplicação. O Clube era o nosso “cantinho”; era o lugar onde nós podíamos dar asas à nossa imaginação, criando nossos textos como autores, cantando, representando e, sobretudo, lendo e discutindo diversos livros e outros textos. (...) Hoje, fazendo uma análise daquela nossa experiência, chego à conclusão de que o fato de ter tido um Clube de Leituras no meu primário me fez diferente daqueles que não tiveram essa oportunidade, pois ele me fez crescer como pessoa, ter outro olhar a respeito de tudo o que me cerca.

As palavras de Gisele, ex-aluna e uma das fundadoras do Clube de Leituras, vão ao encontro do que o escritor Ziraldo costuma declarar: “a leitura deveria ser considerada o nosso sexto sentido vital”. Esse posicionamento é ratificado no texto, sempre atual, de Luiz Antonio Aguiar, publicado no Jornal do Brasil, Caderno Ideias, no ano de 1994. Nele, o autor afirma que leitura é um procedimento de formação, não de educação, que não pode estar sujeito a cobranças: “É a matéria-prima para criar mundos para si” e “se trata de uma aventura que não estará refletida no boletim escolar, mas no reconhecimento do que se ganhou, do que se aproveitou e se ampliou na existência”. Leitura é um ato de intimidade e de libertação.

Leitura para além das paredes do Clube

“Como se fora brincadeira de roda” (verso de Redescobrir, de Gonzaguinha), tornando as rodas de leitura espaços privilegiados no cotidiano da sala de aula, promovemos nos encontros a circulação de saberes e fazeres, ousando caminhar por tantos “bosques da ficção” (Umberto Eco), por muitos “lugares de memória” (Pierre Nora) de forma prazerosa, produtiva e significativa. Nesse processo de alfabetização do olhar, temos feito grandes descobertas. Temos lembrado muitas lembranças, (re)descobrindo nossa identidade individual e coletiva, revirando o “baú” das nossas histórias e da História do país.

Nas trocas que estabelecemos no cotidiano, as crianças sempre surpreendem com preocupações que, pensava, jamais habitassem suas cabecinhas. Paulinho da Viola, em uma de suas composições, declara que “as coisas estão no mundo / só que preciso [precisamos] aprender” (Coisas do mundo, minha nega). Por sentirmos essa necessidade, por vivermos no dia a dia sensíveis transformações e pelo desejo de lembrarmos lembranças, é que muito do trabalho se desenvolve para além dos muros do Colégio.

Assumindo olhos de ver e de sentir, realizamos nossas expedições, os trabalhos de campo. Procuramos ler a História através das marcas de tempo deixadas nas ações e relações das pessoas, nos documentos e monumentos, nos equipamentos urbanos, na arquitetura das edificações, nas tradições, usos e costumes, nas manifestações culturais, na paisagem e no desenho de cidades com tal potencial, como Vassouras, Paraty e o próprio Rio de Janeiro. Estamos, assim, lendo as histórias contidas nos cantos e recantos de cada uma das cidades exploradas nas expedições, conhecendo-as, vivendo-as, respeitando-as em toda sua memória, que compõe nossa identidade coletiva, intensificando o processo de alfabetização do olhar.

As possibilidades múltiplas que a(s) leitura(s) nos oferece(m) auxiliam-nos a tecer, ponto a ponto, o “fio da existência”, dando-nos a verdadeira dimensão do estar vivo fazendo Educação.

Chegando ao fim desta expedição

Em maio de 2012, o Clube de Leitura completou trinta anos. A comemoração se revestiu de muita emoção. Foi um verdadeiro encontro de gerações. Depoimentos como o de Sergio Brandão, um dos fundadores do Clube, foram uma constante:

Que manhã foi aquela de ontem, hein??? Coisa de arrepiar ou de anestesiar... Nem sei dizer!... Quantas lembranças, reminiscências e que baita viagem no tempo... Tantas pessoas queridas e que, apesar do tempo e da distância, não saem mesmo de dentro da gente... É... Cada vez mais, me dou conta de que fui um predestinado a estudar no CAp/UERJ! Quanta coisa esta instituição me deu!!! De quanta coisa fui merecedor!!! OBRIGADO por tudo e por todos estes 30 anos de Clube!!!!!!! Com enorme carinho, Sergio Brandão.

O reconhecimento dos ex-alunos pelo trabalho desenvolvido no Clube com certeza se relaciona com a experiência que cada um viveu, quando criança, como protagonista da própria história. Para finalizar o breve registro desta caminhada – desta nossa expedição de três décadas –, gostaria de fazer meu o pedido sempre renovado de Drummond:

O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógica, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas, e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética. (“A educação do ser poético”, Jornal do Brasil, 20/07/1974.)

 

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