Revista do Vestibular da Uerj
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Rio de Janeiro, 24/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Artigos

A Literatura e o ensino de outras disciplinas escolares, por Ana Regina Bastos

Ano 2, n. 3, 2009

Autor: Ana Regina Bastos

Sobre o autor: Ana Regina Bastos é mestre em Geografia Humana (USP), professora assistente da UERJ (atuação no Departamento de Seleção Acadêmica, no Colégio de Aplicação e na Prática de Ensino de Geografia) e professora do Colégio Pedro II.

Publicado em: 29/09/2009

Tanto os textos científicos como os de ficção são instrumentos úteis no processo de construção do conhecimento e da capacidade de percepção. Isso me faz lembrar momentos muito ricos da minha experiência de adolescente em que eu alongava o tempo dedicado à leitura dos clássicos de nossa literatura. Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e, mais adiante, o poeta Drummond impregnavam a minha emoção com uma representação de Brasil e do brasileiro que jamais pude abandonar. Quando, já adulta, fui fazer o mestrado em Geografia Humana, escolhi fazer uma dissertação que abordava, na perspectiva do ensino, a relação entre Geografia e romance. Adotando a orientação de que a linguagem não é simplesmente um meio de expressão, mas um meio de comunicação, vivências e experiências a partir dos discursos científicos e literários se mesclaram, resultando num trabalho que muito me gratificou. Considerando este adendo, vamos ao que interessa afirmar: a literatura amplia a percepção do mundo e enriquece o ensino de outras disciplinas escolares.

Da mesma forma que os discursos científicos, os textos literários constroem concepções do real, segundo vivências e experiências dos parceiros do discurso (autores e leitores); logo, nada mais são do que representações do real. Assim, muitos teóricos, ao considerarem que o significado não é algo inerente ao texto, afirmam que as significações devem ser remetidas às relações entre esses parceiros. Na relação entre produção e leitura, as significações se dão mediante o confronto da dimensão histórica do leitor com a do autor. No processo dialético entre texto e leitura, às vezes, é difícil a um leitor elaborar significações próximas às imaginadas pelo autor, tendo em vista os diferentes tipos de experiências pessoais e sociais. Escritor e leitor trabalham produzindo e consumindo continuamente. O escritor consome experiências e vivências - emoções, linguagem, memória - e produz o texto, fruto de um complexo sistema de opções determinado por seus valores. O leitor também consome e produz no ato da leitura: consome o texto objetivado pelo escritor e produz significações para o mesmo. Como um resultado de escolhas, tanto autor quanto leitor, a partir de suas experiências e vivências, constroem as representações do real, de acordo com dada concepção de mundo. Portanto, o discurso não é neutro.

Considerando as premissas teóricas aqui explicitadas, é possível vislumbrar uma contribuição ao ensino de várias disciplinas escolares, como Geografia, História, Sociologia, a partir das leituras de romances de autores brasileiros. Alunos e professores das disciplinas da área de ciências humanas podem e devem utilizar a literatura para discutir a realidade brasileira ao longo do processo histórico. Com certeza, a análise da intensificação das relações capitalistas em meados do século XX encontrará, em romances de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, um rico material para reflexão; já a abordagem do espaço urbano terá nas obras de Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio um instrumental útil para debate.

Discutir a realidade brasileira, por meio de romances, lembra-nos afirmações de Octávio Ianni em A idéia do Brasil moderno (1992): "acontece que a nação é real e imaginária. Localiza-se na história do pensamento. Está no imaginário de uns e outros: políticos, escritores, trabalhadores do campo e da cidade, brancos, negros, índios e imigrantes, cientistas sociais, filósofos e artistas. E seria muito outra, se não se criasse de quando em quando, na interpretação, fantasia, imaginação. (...) No emaranhado dos desafios que compõem e descompõem o Brasil como nação, as produções científicas, filosóficas e artísticas podem revelar muito mais o imaginário do que a história, muito menos a nação real do que a ilusória. Mas não há dúvida de que a história seria irreconhecível sem o imaginário. Alguns segredos da sociedade se revelam melhor precisamente na forma pela qual aparecem na fantasia. Às vezes a fantasia pode ser um momento superior da realidade".

O imaginário que se opera através do discurso veiculado pelos romances da literatura brasileira facilita o processo de ensino-aprendizagem de várias disciplinas, empreendendo um "pulsar de vida" no público adolescente a que se dirige. O uso de romances poderá ajudar o processo de apreensão da realidade social. A partir dos romances é possível percorrer a sociedade e a época em que foram produzidos. O conhecimento da sociedade - sua organização, seus valores, sua estrutura, sua produção cultural e sua história - é veiculado pelo texto literário, facilitando e estimulando a pesquisa de conteúdos de disciplinas escolares como História, Geografia e Sociologia.

Em muitos momentos da produção ficcional brasileira, há uma analogia entre linguagem literária e as ciências sociais na busca de uma afirmação da identidade nacional, de forma a se representar o real com "olhos de brasileiros". Produções das décadas de 1930 e 1940, por exemplo, dão ênfase às atividades econômicas daquele momento histórico.

Romances do ciclo da cana de José Lins do Rego expressam a representação da desintegração da sociedade na Zona da Mata nordestina, assim como na produção literária de Jorge Amado apresenta um registro que se pretende fiel do ciclo do cacau. Traçando o perfil da grande propriedade rural do Nordeste nos momentos de apogeu, crise e decadência, José Lins do Rego vai ao passado glorioso do engenho, por meio da memória. Amado, utilizando a lógica dialética, faz uma representação da realidade brasileira na perspectiva revolucionária. Em romances sobre o tema da seca nordestina, Rachel de Queizoz (O quinze), Graciliano Ramos (Vidas secas) e Jorge Amado (Seara vermelha) apresentam a relação homem-natureza no sertão semi-árido, de forma a desmitificar a idéia de que a seca, como fenômeno natural, é responsável pelo atraso do sertão. Já Graciliano Ramos, em São bernardo, lida com temáticas de ordem sociológica e psicológica, representando o apogeu e crise do grande proprietário, na ânsia do lucro diante da lógica capitalista. Logo, esses romances contribuem para representar, de maneira "fotográfica", a realidade brasileira de forma documental, com denúncia social, o que ajuda na construção da identidade nacional.

Para concluir, podemos afirmar que os romances da literatura brasileira podem servir para enriquecer o processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos de outras disciplinas escolares, visto que a produção científica pode realizar um salto qualitativo onde for possível incluir uma leitura subjetiva e cultural que se some à crítica política e econômica - mais objetiva. Finalizo com uma proposta aos docentes e discentes do ensino médio: que se experimente a aproximação da Literatura com as disciplinas História, Geografia e Sociologia.

 

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