Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Perguntar é preciso?

Gustavo Bernardo

Não deixa de ser curioso perceber que a escola vive de fazer perguntas, mas pouco ensina a perguntar. Por que isso acontece?

Talvez porque as perguntas que se façam na escola não sejam, em sua maioria, perguntas autênticas. O professor que pergunta já sabe a resposta. Logo, suas perguntas são antes retóricas, formuladas não para se explorar uma dúvida real mas sim para levar os alunos à resposta que ele deseja. O autor de uma pergunta autêntica, ao contrário, não sabe previamente a sua resposta – ele pergunta porque não sabe e quer saber.

A caricatura de uma aula de perguntas inautênticas é realizada por aquele professor que fala com lacunas: “quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Ca...? ... Bral, muito bem!”.

Mas chamar a pergunta retórica de “inautêntica” sugere que ela é apenas negativa, quando na verdade pode ser útil tanto para fixar o conhecimento quanto para avaliá-lo (com a exceção do caso extremo acima). Chamemo-la, então, de “escolar”.

No entanto, ainda assim precisamos reconhecer que perguntas desse tipo não são suficientes para desenvolver o pensamento do aluno e para que ele próprio produza o seu conhecimento. Torna-se então necessário, em primeiro lugar, estimulá-lo com perguntas autênticas que de fato o levem a pensar à frente do que está sendo ensinado; torna-se também necessário, em segundo lugar, levá-lo a fazer perguntas autênticas, quer para o professor quer para si mesmo.

Por que o professor precisa fazer também perguntas autênticas? Primeiro e mais do que tudo, para dar o exemplo de uma maneira de pensar curiosa, inquisitiva, especulativa, em resumo: científica. Não há método de educação mais eficiente do que o velho método do exemplo. Se, como professor, passo para o meu aluno o exemplo de uma atitude especulativa e responsável, levo-o a ter a mesma atitude, ou seja, lhe ensino o principal: não fórmulas decoradas mas sim como chegar por si mesmo às fórmulas existentes e ainda produzir novas, mais eficientes.

Uma outra razão para o professor se habituar a fazer perguntas autênticas para os seus alunos, dividindo suas dúvidas reais com eles, se encontra na conhecida definição de João Guimarães Rosa: “professor é aquele que de repente aprende”. Para não se tornar um burocrata na sua disciplina, preso na folha de respostas de ultrapassados livros didáticos, o professor precisa aprender também com as suas próprias aulas. Logo, ele precisa adquirir o hábito de enunciar perguntas autênticas.

O bom exemplo do professor perguntador acompanha uma metodologia da pergunta. Deve-se estimular o aluno a expressar as suas dúvidas reais, tanto oralmente quanto por escrito. Depois, deve-se mostrar como ajuda usar perguntas para estudar – por exemplo pedindo, como trabalho a ser avaliado, dez perguntas autênticas sobre o livro que estiver sendo lido. Apenas a discussão das perguntas formuladas pelos alunos já oferece a oportunidade para aulas ótimas.

Deve-se mostrar, ainda, como ajuda usar perguntas para escrever qualquer redação. Veja o leitor como terminei o primeiro parágrafo e como comecei o quinto parágrafo deste texto: com perguntas. Cada uma delas não só me ajuda a desenvolver o meu raciocínio como também ajuda o leitor a acompanhá-lo. A redação sempre parece mais inteligente, e deixa o seu leitor igualmente mais inteligente, quando se desenvolve através de perguntas.

Entretanto, meu leitor, sempre crítico, pode dizer que as minhas perguntas se confundem com perguntas retóricas, escolares ou inautênticas (como queiramos chamá-las). Ora, caro leitor, você pensa isso porque ainda guarda na cabeça a ideia de que a redação se encontra inteira dentro da cabeça antes de ser escrita, o que não é verdade. O pensamento se forma à medida em que é formado, isto é, à medida em que o expressamos. Só fica claro o que quero dizer quando o digo. Por isso, as perguntas que faço para o meu próprio texto me ajudam sobremaneira a pensar e, portanto, a chegar às minhas respostas e deixá-las claras para o leitor – leitor este que, quando me lê, sente-se contemplado por um pensamento que respeita o seu próprio pensamento, ou seja, as suas próprias dúvidas.

Lembremos aqui o aforisma completo de René Descartes: “dubito ergo sum, vel quod item est, cogito ergo sum”. Ou, em bom português: “duvido logo existo, ou, o que é o mesmo, penso logo existo”. Para pensar é preciso duvidar; para pensar é preciso fazer boas perguntas. Parodiando o poeta, eu diria, para encerrar: “perguntar é preciso, responder nem sempre é preciso”.

 

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