Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 24/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Por que morreram?

Gustavo Bernardo

No cartum do gaúcho Edgar Vasques, seu personagem Rango pergunta, assustado com a chacina na favela: por que morreram?

Num sentido amplo, a resposta do homem encapuzado não é mentirosa: porque estavam vivos, ora; se já estivessem mortos, não teriam morrido de novo.

Só que não foi exatamente isso o que Rango quis perguntar, mas sim: por que você os matou? Mesmo com a pergunta mais explícita, o homem armado poderia dar uma resposta parecida: porque eles mereciam morrer, ora.

O meu leitor talvez tenha dado um passo atrás, assustado com o tema: mais do que delicado, ele é perigoso! É verdade; os sofismas, como os que vimos na última crônica, podem ser muito perigosos. Em situações verdadeiramente sérias, o medo ou o ódio podem nos levar a aceitá-los e a repeti-los com muita facilidade.

Nos dois casos, a resposta do homem armado é um círculo vicioso mal disfarçado. Dizer “eles morreram porque estavam vivos” é o mesmo que dizer “eles morreram porque todo mundo que está vivo morre”. Assim, foge-se da pergunta. Quando a pergunta se explicita, porém, a resposta “eles morreram porque mereciam morrer” equivale a afirmar “eles morreram porque eu quis que eles morressem”.

Mas, digamos que Rango continue e pergunte: por que você quis que eles morressem? O sujeito poderia encerrar a questão com um mero “porque sim” – ou então apontar a arma para o coitado do Rango e puxar novamente o gatilho...

Por sorte, Rango não passa de um desenho: essas páginas virtuais não se mancharão de sangue. Mas certa lógica caminha suja de sangue. Quando alguém, imbuído de furor justiceiro ou revolucionário, lembra que “não se faz um omelete sem quebrar os ovos”, tendemos a concordar, espantados por não termos percebido antes essa coisa óbvia. Entretanto, “ovos” é uma metáfora para “cabeças” – de pessoas. A comparação subentendida entre ovos de galinha e cabeças de pessoas é absolutamente impertinente.

Na verdade, essa discussão se revela muito mais complicada. Quando um atirador de elite da polícia mata um criminoso no momento em que ele tomava uma mulher de refém, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, podemos entender que o policial realizou bem o seu trabalho ingrato, mas necessário.

Eu cumprimentaria aquele policial, mas, por respeito a ele mesmo, não o aplaudiria. Afinal, ele matou um homem. Aplaudir a ação, como fizeram vários transeuntes na hora, e vários leitores de jornal depois, me parece uma estupidez motivada pelo medo. Aliás, eu também não divulgaria sua foto, como fizeram os jornais, irresponsavelmente. Sem contar o risco de vida para ele e sua família, transformá-lo em celebridade é no mínimo uma imoralidade.

Esse caso não foi uma execução, mas uma ação legítima de defesa civil. A partir dele, no entanto, logo se escutam e se leem clamores histéricos pela instituição da pena de morte. Alguns já defendem procedimentos mais rápidos, como execuções sumárias de supostos criminosos, ou mesmo de criminosos em potencial – como, digamos, jovens favelados, em geral negros, é claro...

O medo nos torna ratos acuados que param de pensar para apenas guinchar.

Há muitas outras perguntas a serem feitas. Tais perguntas podem ser pragmáticas. Nos países em que ainda existe a pena de morte, a criminalidade é efetivamente menor? A ação de “pelotões da morte” (como mostra o cartum de Edgar Vasques) reduz a criminalidade ou, pelo contrário, a intensifica? Só com as respostas objetivas a perguntas pragmáticas como estas já podemos duvidar da eficiência da pena de morte, tanto a formal quanto a “informal”.

Mas devemos fazer também perguntas filosóficas – no caso, éticas. Defender a pena de morte para assassinos não implica defender o assassinato que condenamos? Defender execuções sumárias de supostos criminosos não nos torna já assassinos, criando o ambiente que sustenta os matadores de um lado e do outro? A defesa desse tipo de ação não é uma tese ela mesma circular, portanto imbecil, do tipo “eles morreram porque estavam vivos”?

Segundo Sigmund Freud, que considero uma autoridade em sentimentos reprimidos pelo ser humano, a psicologia por trás dessa irracionalidade não é nem a da justiça nem a da vingança, mas sim a do ressentimento e da inveja. É proibido matar porque existe em nós o desejo de matar. Se alguém realiza esse desejo interditado, nós outros nos liberamos para realizar a nossa própria compulsão assassina sobre o corpo do assassino: ah, se alguém matou, eu também posso!

Por isso, quando se prende um estuprador, gritamos para jogá-lo na cadeia no meio de outros presos que provavelmente o violentarão também. Ainda que por tabela, através de “representantes” metafóricos, descarregamos nele o nosso desejo reprimido. Graças ao rompimento do tabu, podemos romper o tabu; graças ao crime do criminoso, podemos nós mesmos cometer o mesmo crime no corpo do próprio criminoso, disfarçando-o de justiça tipo “olho por olho”.

Se Freud está certo, devemos desconfiar sobremaneira do nosso sentimento de indignação, daquela sensação de ira santa que nos acomete perante a notícia de um crime hediondo: ela pode esconder um sentimento reprimido igualmente hediondo.

É, essa crônica foi pesada. Às vezes, pensar pesa. Mas é preciso pensar, antes de qualquer coisa, sobre o próprio pensamento, para conquistar o mínimo de honestidade intelectual.

 

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