Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Por que o professor nunca aceita a minha opinião?

Gustavo Bernardo

Quando peço um trabalho discursivo, não é incomum, na hora de entregar as notas, aparecer um aluno perguntando por que a opinião dele não foi aceita. Reservo para esses momentos uma contra-pergunta cruel: “tinha alguma?”

É maldade, reconheço, ainda mais com alunos que já se encontram fragilizados, quiçá revoltados, com a nota obtida. Mas essa pergunta surpreende e serve para desestabilizar as expectativas possíveis: de que o professor fique envergonhado por não aceitar a opinião do aluno e volte atrás, ou de que tente sustentar a sua própria opinião como melhor e mais correta do que a do aluno.

No primeiro caso, confesso minha incompetência; no segundo, exponho minha prepotência.

É claro que a correção e a avaliação podem ser mal feitas, quer por o professor se encontrar com a mão pesada demais, quer por a proposta inicial não ser clara. Além disso, toda avaliação envolve um forte componente de subjetividade de quem avalia. Ora, na redação esse componente se multiplica por dois ou três.

Além da pergunta cruel acima, eu também costumo assumir em sala que a avaliação, por considerar apenas o produto final e a perspectiva do professor, e por não poder levar em conta as condições de produção do aluno nem compará-lo com ele mesmo, implica forte possibilidade de injustiça.

A minha avaliação não é diferente: as chances de ser injusto sempre são grandes. No entanto, é preciso avaliar, e de um lugar de autoridade, para que o aluno receba um retorno sobre o valor do que está fazendo. A nota, justa ou injusta, é a moeda de troca da escola. Para minimizar a possibilidade de injustiça, abro espaço para reclamações, mas sugiro que o aluno elabore cuidadosamente tais reclamações, de preferência também por escrito.

Quando o aluno não está apenas reagindo para “ver se cola”, portanto, quando ele tem certeza de que foi injustiçado e resolve argumentar por escrito, muitas vezes não só ele está certo em algum aspecto, forçando-me a rever a nota, como ainda escreve muito melhor do que no trabalho que originou a reclamação. Por quê?

Porque no trabalho original ele atende a uma demanda do professor e da escola, enquanto na reclamação ele defende o seu interesse. A segunda redação atende a uma necessidade e a um desejo pessoais, levando-o a caprichar muito mais. Acabo criando um exercício menos artificial do que o primeiro, permitindo-me mostrar para o aluno que, quando ele quer e precisa, pode fazer muito melhor.

Resta explicar a crueldade da pergunta “tinha alguma?”.

Além de desestabilizar as expectativas reativas, ela denuncia a supervalorização fetichista da “opinião pessoal” na nossa cultura. A todo instante, na televisão, nos jornais, nas mesas de bar, nas eleições, somos convocados a “dar” a nossa opinião a respeito de tudo e mais alguma coisa, como se tivéssemos no bolso uma coleção de opiniões.

O verbo “dar”, associado ao objeto direto “opinião”, sugere que opinião é uma “coisa” concreta que se tem ou não se tem. Transforma-se assim a opinião num fetiche, numa coisa – num objeto simples e não numa ideia complexa. Entretanto, se observarmos a nós mesmos com honestidade, “temos” opinião própria sobre pouquíssimos assuntos. Aquilo que chamamos de “nossa opinião” é em geral uma costura frágil de opiniões alheias, entremeando o que ouvimos ali e lemos acolá.

É muito difícil “ter” uma opinião porque uma opinião verdadeiramente pessoal se constrói com cuidado e com tempo. Não se pode sacar do bolso uma opinião adequada a tudo quanto seja tema. Por isso, pergunto ao aluno, que reclama de sua opinião não ter sido levada em conta, se ele de fato tinha alguma. Atrás da aparente maldade, há uma lógica.

Não critiquei a redação desse aluno por causa da sua opinião ou porque não concordava com ele, mas devido à fraqueza dos seus argumentos, argumentos estes típicos de opiniões apressadas, confusas e incoerentes. Como professor, pouco me interessam alunos que repitam o que digo, mas sim alunos que construam argumentos fortes, capazes de sustentar quaisquer teses.

Algumas vezes, ao coordenar bancas de correção de redações em concursos vestibulares, lembrei aos professores que, caso não concordassem ou se indignassem com a opinião externada por algum candidato, pensassem que seria bastante provável que aquela redação estivesse muito boa, e não muito ruim! Por quê? Porque, se incomodou o leitor-avaliador a ponto de irritá-lo, os argumentos deveriam ser fortes o bastante.

Fora da situação de concurso, em sala de aula, procuro lembrar-me desse alerta. Um trabalho que me incomode tem grandes chances de ser bom, no mínimo porque saiu da mesmice. Logo, tendo a avaliá-lo positivamente, sem me abster de discutir depois com o aluno as suas ideias. Indico que o respeito avaliando-o positivamente e, ao mesmo tempo, expressando minha discordância. Esse aluno constrói verdadeiramente uma opinião própria, e isso deve ser destacado.

Dei o exemplo de como tento avaliar, mas confesso que nem sempre consigo ser tão “democrático” ou tolerante. Tantas vezes percebo que fui injusto e, pior do que injusto, arrogante, quando é tarde demais. Sinto-me como o médico que comete um erro grave, capaz de custar até a vida do seu paciente. Meus erros não matam pessoas, mas podem machucar bastante. Como aquele médico, no entanto, preciso aprender com o erro e continuar, se essa é a minha profissão.

“Eu” sou menos importante do que o que eu faço, e posso fazê-lo bem se ficar menos preocupado comigo, com a minha imagem, com a minha opinião, enfim. Reza a filosofia oriental que “um sábio não tem ideia”, isto é, não tem opinião. Não sou esse sábio, é claro, mas o ponho no horizonte como um ideal capaz de regular a minha prática cotidiana.

Esse sábio procura apenas pensar e especular, ou seja, procura apenas duvidar e explorar a fundo as suas dúvidas. É o que uma boa redação, um bom trabalho discursivo também pode fazer, desistindo de procurar no bolso a “opinião certa”.

 

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