Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

O professor pode ser o herói da fita?

Gustavo Bernardo

A pergunta do título é um pouco irônica, aludindo à desvalorização do lugar do professor na sociedade: escuto-a sempre acompanhada de um risinho de mofa.

Embora tome formas específicas entre nós, este não é um problema exclusivamente brasileiro. O nefasto ditado, “quem sabe, faz, quem não sabe, ensina”, pode ser ouvido em todas as línguas, sugerindo que o professor é um profissional, digamos, menor do que os outros, porque se conforma em não produzir conhecimento para apenas reproduzi-lo. Quantos de nós não despertamos mal disfarçados semblantes de piedade, ao contarmos para a família que resolvemos ser professores? Parece que pensam: coitado, ele podia ser coisa melhor...

É essa visão a respeito do professor, negativa mas muito popular, que justifica, em surdina, a manutenção de baixos salários e péssimas condições de trabalho para os professores, principalmente da escola pública, apesar de todo mundo concordar sobre a importância da educação. A contradição entre o discurso da sociedade e a sua prática oficial passa a impressão de que só teremos uma escola de qualidade quando não houver mais professores: nós é que somos o problema...

O reconhecimento de semelhante percepção negativa responde de modo igualmente negativo à pergunta acima: imagina!, claro que o professor nunca pode ser o herói do filme, no máximo ele será um coadjuvante bem chinfrim.

Todavia, o cinema mesmo não concorda com isso. Qualquer bom espectador de cinema, em especial quem gosta de uma boa sessão da tarde, é capaz de listar dezenas de filmes em que o herói ou heroína é um professor ou professora que com frequência comoverá profundamente toda a plateia. Ora, isso significa que no íntimo todos temos a imagem do professor herói, aquele que muda a nossa vida e nos faz não apenas saber mais, mas também nos faz ser mais, tornando-nos melhores do que éramos.

Quem nunca encontrou esse tipo de professor sente a falta dele por toda a vida, e quem encontrou sonha em reencontrá-lo de algum modo – por exemplo, tornando-se ele mesmo um mestre, ou seja, o professor que fará a diferença na vida senão de todos, ao menos de alguns alunos, e já terá valido a pena.

A contradição se mantém: prezamos mal a profissão de professor, mas a despeito disso sonhamos com o encontro ou o reencontro com um grande professor. Esse encontro ou reencontro também se dá na ficção, literária ou cinematográfica. Pensando apenas nas fitas de cinema, do professor Mark Thackeray de "Ao mestre, com carinho" (1967), vivido por Sidney Poitier, ao professor John Keating, de "Sociedade dos poetas mortos" (1989), vivido por Robin Williams, posso listar dezenas e dezenas de professores heróis. Mas o mais bonito filme de professor, o que mais mexeu com este professor que vos escreve, é pouco conhecido.

Trata-se do filme "Wo de fu qin mu qin" (1999), em inglês "The Road Home", em português "O caminho para casa", dirigido por Zhang Yimou. A tradução do título em mandarim seria algo como "Os meus pais".

O filme começa em preto e branco, com Luo Yusheng (vivido por Sun Honglei) voltando à aldeia natal para o funeral do pai. A mãe exige o cumprimento de uma tradição em desuso: que o caixão do pai seja trazido do hospital da cidade para ser enterrado na aldeia, mas num cortejo a pé, em pleno inverno rigoroso. O objetivo do cortejo é que o morto não esqueça o caminho de casa. Enquanto tenta demover a mãe, Luo relembra em flashback a história de amor deles, toda mostrada em deslumbrantes cenas coloridas.

O espectador volta junto até 1958, quando Luo Changyu (vivido por Zheng Hao) chega à aldeia para assumir o posto de professor da pequena escola primária. Acima do quadro-negro da escola, a foto de Mao Tsé Tung. Os homens da aldeia constroem juntos a escola, enquanto as mulheres cozinham para eles. À jovem mais bonita do lugar, Zhao Di (vivida por Zhang Ziyi), compete tecer a bandeira vermelha que será enrolada na viga principal do telhado. O professor, depois, não deixará que coloquem laje no telhado, para a viga ficar aparente e assim ele poder olhar sempre para a bandeira enquanto dá aula. Desse modo, o símbolo nacional recebe conotação inteiramente diferente. Já na chegada do professor eles trocam olhares, como mostram as cenas abaixo, e logo se apaixonam.

 

Os encontros entre eles, difíceis naquela aldeia tão pequena, tornam-se mais difíceis ainda porque o professor é chamado de volta à cidade pelo governo, sugerindo-se que ele seja um dissidente da revolução cultural de Mao. Não sabemos porque ele seria um dissidente até o final do filme, quando nos é dito que ele criou uma cartilha própria para ensinar as crianças a ler e a escrever. Essa cartilha contém frases muito simples que, todavia, apontam para a necessidade de olhar com os próprios olhos e pensar com a própria cabeça. Isso significa que o professor recusou a cartilha doutrinária do Partido, embora esta cartilha e a recusa não apareçam no filme.

O professor Luo, punido, tem de ficar mais de dois anos longe da aldeia. Zhao o espera com paixão, às vezes permanecendo horas na neve. No meio do inverno, tenta chegar a pé até a cidade, mas desmaia e adoece gravemente. Luo volta por duas vezes, desesperado por encontrar Zhao, na primeira delas desobecendo ao Partido. Em ambas, Zhao sabe que ele voltou porque de sua casa escuta a voz do professor dando aula. Junto com o resto da aldeia, ela vai para o lado de fora para escutar o seu professor, deixando todos emocionados com a sua devoção.

Finalmente eles ficam juntos, sem que o espectador testemunhe sequer um beijo. No entanto, os olhares intensos e a fixação da câmera em detalhes, como a tigela de porcelana em que o professor comia, narram com sobras esse amor absoluto.

Voltamos então ao presente, quando Luo, o filho do professor Luo, se convence a atender o desejo da mãe e contrata homens de outra aldeia para levar o pai de volta para casa. A notícia se espalha e mais de cem homens, a maioria ex-alunos do professor que ensinou por 40 anos, aparecem para participar no inusitado cortejo fúnebre. Ninguém aceita ser pago, nem os que foram contratados. Todos se revezam carregando o caixão a meio de uma forte nevasca, enquanto gritam com o morto para que ele não esqueça o caminho de casa.

Com o professor enterrado, a mãe diz que o desejo do pai é que o seu filho, que não seguiu a carreira, desse pelo menos uma aula na sua vida. Na manhã seguinte, acorda com a voz do filho dando uma aula na antiga escola, e usando a mesma cartilha do seu pai.

O professor Luo deixa para seu filho, para seus alunos, para os chineses e para os espectadores uma herança, ou melhor, uma cartilha de paixão, independência, dignidade, constância e beleza. Não resisto à tentação de afirmar que essa cartilha só podia ser deixada por um professor.

 

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