Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Ficção demais faz mal?

Gustavo Bernardo

Lá estou eu na sala de espera da minha dentista, preocupado com a dor que sentirei daí a minutos. Sim, a doutora usa anestesia, claro, mas a própria anestesia já dói o suficiente para me preocupar. Os minutos parecem horas e o tempo não passa, confirmando a famosa teoria da relatividade. Atraco-me então com uma das revistas da sala de espera, para ver se engano o tempo.

Trata-se de uma revista velha, voltada supostamente para o público feminino. Nela, há uma seção chamada “Consultório Psicológico”, na qual um certo “Dr. César” responde a perguntas. Nesse número, uma leitora angustiada pergunta: “Dr. César, gostaria de saber se a leitura de ficção prejudica o indivíduo e atrapalha a vida prática”.

A resposta do Dr. César me faz esquecer por instantes da minha preocupação. Ele diz, do alto do seu suposto diploma de psicologia:

“Querida leitora: quando o ser humano se envolve demais com ficção, talvez tenha dificuldade de se adaptar à realidade presente. Ficar fora da realidade pode vir por causa da fixação em ficção (excesso de leitura, filmes). Um jovem pode ler romances demais. Fixará então ideias românticas exageradas sobre o relacionamento homem-mulher, e isso o levará a ter uma expectativa ficcionista (fora da realidade) em relação ao casamento. Daí surgem problemas no relacionamento conjugal. Esse é o caso das pessoas que se surpreendem no casamento quando percebem que ele não é quase nada daquela ideia que faziam dele, justamente por uma fixação muito grande em ideias irrealistas sobre a vida conjugal e a felicidade no lar. Porém, parece que o problema principal que as leituras de ficção causam, quando frequentes, é perturbar a pessoa na sua ligação com fatos da realidade, pois naquilo que uma pessoa mais se concentra, com isso mais ela se assemelha. E a vida é a realidade, não a ficção.”

O ilustre psicólogo que atende pelo nome de Dr. César (assim mesmo, sem sobrenome) bem pode ser o pseudônimo de um “foca”, isto é, de um jornalista iniciante que precisa provar suas habilidades de redação escrevendo tanto as cartas das “leitoras” quanto as respostas do “psicólogo”. Ou seja: o próprio Dr. César é muito provavelmente uma ficção também, assim como a “querida leitora”.

Mas, por ora, vamos desconsiderar essa possibilidade e acreditar que o Dr. César tem esse nome e realmente é um doutor no assunto.

Seu texto não deixa de ser emblemático da confusão que boa parte das pessoas faz com a ficção. Para o nosso doutor, o hábito da ficção explica a desilusão das pessoas casadas que se divorciam em processos dolorosos: elas seriam vítimas de uma ilusão anterior motivada pelo excesso de leitura de romances. No fundo, as pessoas não seriam realmente responsáveis, coitadas, mas sim a literatura. Se o leitor de romances ultrapassa o limite do mero entretenimento, se lê “romances demais”, ele corre o risco ou da desilusão amorosa ou até mesmo da loucura.

Para quem gosta de ficção, como é obviamente o meu caso, esse modo de pensar é absurdo. No entanto, ainda que eu o veja assim, não posso negar que ele seja comum e, mais do que comum, muito antigo.

Em 1605, o escritor espanhol Miguel de Cervantes já o satirizava no seu romance mais conhecido: os amigos de Alonso Quijana creem que ele enlouqueceu ao se transformar em “Dom Quixote de La Mancha” e põem a culpa nos seus livros, ou seja, no seu excesso de leitura de romances de cavalaria. Esses amigos resolvem queimar os romances que teriam prejudicado a mente do fidalgo Quijana, mas, ao fazê-lo, ironicamente mostram que eles também leram todos aqueles livros. A ironia se amplia quando percebemos que o episódio da queima de livros de ficção, por prejudiciais à mente, se dá dentro do maior livro de ficção de todos os tempos.

Os amigos de Dom Quixote e o Dr. César revelam a convivência ambígua que temos com a ficção. Não é apenas quem faz Letras que gosta de ficção, todos precisamos diariamente de ficção (se possível na veia), mas, para não sermos tachados de loucos como Quixote, fingimos que estamos o tempo todo ligados na tal da realidade.

Só que, das 24 horas do dia, passamos 8 dormindo, ou seja, passamos um terço do tempo sonhando. Ora, o sonho é o exercício necessário de ficção do nosso inconsciente, como Freud demonstrou há muito tempo. Nos outros dois terços do tempo, se formos honestos perceberemos que passamos mais tempo fantasiando, sonhando acordados, caraminholando lá dentro da nossa cabeça, do que prestando atenção nos outros e nas coisas em volta.

Ou alguém acredita que o ilustre passageiro do ônibus lotado fica o tempo todo da viagem pensando no ônibus lotado em que está? Para sobreviver mentalmente, ele tem de pensar na praia, no ventilador de casa, na namorada que não tem mas mesmo assim é linda. Da mesma forma, eu também não acredito, já perdi essa ilusão, que meus alunos passem o tempo todo das minhas aulas à noite com a mente ligada nas minhas palavras. Para sobreviverem psiquicamente, eles também precisam fantasiar: ou que estão no meu lugar (é muito melhor dar aula do que assistir aula) ou que namoram Capitu, Lucíola, quiçá Gabriela, a do cravo e da canela.

Nossos meios de comunicação sofrem do mesmo “problema”. Por exemplo, observe-se a maior rede de televisão do país. Pelo menos 80% da sua programação são compostos de ficção no sentido estrito: desenhos animados, seriados, casos especiais, minisséries, novelas, filmes. Os outros 20% não deixam de se confundir com a ficção, como os “reality shows” e mesmo os jornais televisivos.

O próprio “Jornal Nacional”, para nomear de uma vez, se estrutura como um romance desses de jornaleiro, tipo “Bianca” ou “Sabrina”: os locutores passam 40 minutos narrando notícias negativas, sempre com expressões muito sérias no rosto, para nos últimos 5 minutos, e apenas nesses últimos 5 minutos, contarem, com um sorriso largo no rosto, uma história pitoresca, um gesto generoso de um cidadão, um fato sobre “o Brasil que dá certo”. Não à toa “um casal que deu certo” compõe a dupla principal de locutores do programa.

Os romances de jornaleiro são assim mesmo: a mocinha passa 60 páginas sendo humilhada, perseguida e escorraçada para, nas últimas 10 páginas, encontrar o grande amor da sua vida. É totalmente inverossímil, mas que leitor quer verossimilhança? O leitor pede: “me engana, que eu gosto”. Ele se diverte porque a personagem come o pão que o diabo amassou, isto é, sofre bem mais do que ele mesmo, e depois se diverte mais ainda porque ela alcança a felicidade, lhe dando esperança para alcançá-la também: se ela sofre tanto e se dá bem ao final, por que não eu?

Quando dizemos “me engana que eu gosto”, expressamos a nossa necessidade psicológica e antropológica de ficção. Apenas a ficção dos romances, dos filmes, dos “causos” contados à volta do chopp (como antes à volta da fogueira) pode nos ajudar a enfrentar a realidade finita, essa realidade que limita drasticamente a nossa própria vida. Por isso mesmo, a ficção se encontra presente não somente na ficção em sentido estrito, mas também em todos os discursos que conhecemos: os discursos da ciência, da história, da política, da religião.

Mas esse é assunto para uma próxima crônica.

 

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