Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 22/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Tudo é ficção?

Gustavo Bernardo

Terminava eu a crônica anterior afirmando que temos necessidade de ficção. Essa necessidade é tanto psicológica quanto antropológica.

A necessidade de ficção é psicológica porque a ficção nos ajuda a enfrentar a realidade finita que limita drasticamente a nossa própria vida. A necessidade de ficção é antropológica por não ser apenas do indivíduo mas de toda a cultura, a tal ponto que todos os discursos que conhecemos – da ciência, da história, da política, da religião – têm uma estrutura ficcional.

Com isso afirmo que tudo é ficção? Absolutamente não. Da tese de que todos os discursos são ficcionais não se deduz a hipótese de que tudo seja ficção, portanto que não exista coisa tal como a realidade. Creio firmemente que eu, o leitor, as coisas e a realidade existimos – apenas não tenho e não posso ter acesso pleno à realidade toda.

Através dos meus sentidos tenho acesso apenas a uma pequena parte da realidade: não posso enxergar em mais de três dimensões, não posso perceber o mundo nem na escala quântica nem na escala astronômica, e também não posso ver a realidade como os demais animais a veem. Pior: não percebo uma dimensão fundamental da existência, a do tempo. Sei que existe coisa tal como o tempo, mas não sei o que é nem como afeta tudo o mais.

Todavia, se meus sentidos são limitados e não me permitem acesso à realidade toda, amplio-os inventando instrumentos (como o microscópio) e linguagens (como a matemática) que me permitem chegar mais próximo. De fato chego aonde meus sentidos não poderiam chegar – mas ainda não chego “lá”, isto é, ainda não consigo ver ou descrever a realidade toda.

Há muitas provas científicas e filosóficas do que estou falando, mas elas são bastante complexas. Tentemos a prova mais simples da maçã, porém com um alerta: trata-se de uma prova, mas também de uma ficção.

Vamos supor que nos encontramos numa sala de aula e que os queridos leitores são meus alunos. Como antigamente, vocês me trazem de presente uma maçã. Antes de mordê-la eu levanto a fruta na palma da minha mão e lhes pergunto: vocês veem essa maçã?

Todos me respondem: claro, professor!

Então refino mais a pergunta: vocês veem a maçã toda?

Alguns vão observar, é verdade, não estamos vendo nem a parte de baixo nem o lado da maçã que não se volta para a gente – mas para isso basta o senhor virar esses lados para que nós possamos ver a maçã toda. À parte eu não gostar de ser chamado de “senhor” (o que infelizmente acontece com frequência cada vez maior), respondo que se eu mudar os lados que não se encontram visíveis outros lados ficarão invisíveis – logo, vocês continuarão a não ver a maçã toda.

O piadista da turma diz que basta que eu levite a maçã, deixando-a suspensa no ar, e ainda coloque em volta alguns espelhos igualmente suspensos no ar para que todos possam ver a maçã toda de uma vez. Ora, como essa maçã é fictícia e como vocês são igualmente alunos fictícios, concordo com o engraçadinho e faço a experiência da levitação com a maçã e com os espelhinhos.

Daí, pergunto novamente: vocês agora veem a maçã toda?

Todos me respondem em uníssono: agora sim, professor!

Só que eu não fico satisfeito. Pergunto-lhes se veem o lado de dentro da maçã. Não? Então os senhores e as senhoras ainda não são capazes de ver a maçã toda.

Outro engraçadinho tira uma faca da sua mochila (nessa turma fictícia tudo é possível) e me diz: ‘tá bom, então corta o raio dessa maçã ao meio para que a gente veja também o seu lado de dentro.

Obedeço. Corto a maçã ao meio. Levito as duas metades com todos os espelhos. E pergunto: vocês veem toda a parte de dentro de cada uma dessas meias-maçãs? Não? Então ainda não conseguiram ver a maçã toda!

Uma aluna desesperada tira da bolsa um raio laser (como disse, nessa turma de ficção tudo é possível) e me pede: por favor, corta essa maçã em mil fatias finíssimas e ponha todas as fatias suspensas no ar, assim veremos a maçã toda!

Novamente, obedeço. O raio laser da menina é poderoso e meu poder de levitação, insuperável. Fatio a maçã toda em mil micro-pedaços, todos ultra-finíssimos, e os disponho no ar ocupando quase todo o espaço aéreo da sala.

Feito isso, pergunto: e agora, vocês veem a maçã toda?

Silêncio. Espanto. Porque a única resposta lógica que podem me dar é outra pergunta: que maçã?

A coisa que chamávamos de “maç㔠simplesmente desapareceu. De tanto que a analisamos, isto é, de tanto que a esquadrinhamos e a dividimos em partes para melhor enxergá-la, entendê-la e descrevê-la, nós a destruímos. Só posso ver a maçã toda se acabo com ela – logo, não posso jamais ver a maçã toda.

O leitor substitua “maç㔠por qualquer fruta ou por: “realidade”, “indivíduo”, “sociedade”, “fenômeno”. O resultado é o mesmo. Só consigo perceber a realidade ou algum aspecto dela por determinada perspectiva – a minha – em determinado espaço e em determinado tempo – aqueles em que me encontro. Faltam-me sempre todas as outras perspectivas, de número infinito, bem como o poder divino da onipresença. Em consequência, posso dizer que “a verdade é não-toda”. A verdade é sempre não-toda.

Se aceito essa definição de verdade, entendo por que estou sempre procurando mas nunca posso “achar” a tal da verdade sobre qualquer aspecto da realidade. Como percebo apenas uma parte de tudo, completo a lacuna com suposições de como seria a maçã toda (ou a realidade toda).

Essas suposições são as nossas ficções necessárias: elas atravessam todos os nossos discursos.

 

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