Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 22/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

O "Big Brother" é um programa educativo?

Gustavo Bernardo

Já ouvi esta pergunta em sala de aula, algumas vezes como afirmação e não como pergunta. A defesa desse programa popular da televisão faz parte da velha briga “elite” versus “povo”. Professores condenariam programas populares em geral, este em particular, por puro preconceito contra o gosto do povo, tentando impor a seus alunos um gosto elitista. A audiência maciça do programa em sucessivas edições, por sua vez, comprovaria que a escola está errada e o povo, certo.

Não posso negar que a escola defenda posições da elite, mas nem sempre essas posições são “elitistas” (no sentido negativo do termo). Ao mesmo tempo, o argumento de que o povo está sempre certo é um caso clássico de “falácia do consenso”.

Não há motivo lógico em se considerar a maioria ou sequer a totalidade das pessoas como autoridade legítima no que quer que seja. Sempre se torna necessário perguntar qual a evidência em que “todo mundo” apoia as suas ideias para entendê-las corretas. Sustentar-se no consenso (ou no Ibope) implica abdicar da própria opinião para melhor se dissolver no rebanho das ovelhas passivas, embora humanas.

Inovadores científicos e artísticos como Galileu e Da Vinci sempre precisaram defender as suas ideias contra o medíocre consenso da época. Suas obras insistiram por eles até o chamado “senso comum” se render às evidências. A tal da “sabedoria coletiva” muitas vezes não passa de estupidez ou histeria igualmente coletivas.

Da constatação da falácia do consenso não se segue, entretanto, que o povo estaria sempre errado, quando incorreríamos na falácia oposta. Logo, é preciso discutir caso a caso, como sempre. No caso específico do "Big Brother", minha posição, lamento, é “elitista” (no sentido positivo do termo, creio): considero o programa não apenas antieducativo como profundamente imoral, a ponto de vê-lo como filho legítimo do pior de todos os regimes políticos.

O nome do programa faz alusão direta ao personagem do romance "1984", de George Orwell. Nesse romance, escrito em 1948, projetava-se um futuro terrível em que todas as pessoas são observadas todo o tempo em todos os lugares por telas e câmeras de vigilância, supostamente por um “Grande Irmão” generoso, na verdade um tirano cruel. Esse tirano mantém poder absoluto graças à tecnologia das telas de vigilância e a diversas técnicas de tortura e lavagem cerebral.

O “Big Brother” de Orwell se inspira claramente nos grandes tiranos do nosso tempo: Hitler e Stálin. No seu romance o escritor inglês critica frontalmente os campos de concentração nazistas, mostrando-os como um projeto terrível de sociedade. Nesses campos, a principal tortura é a eliminação metódica da individualidade. Não bastava matar todos os judeus, era preciso antes acabar cientificamente com qualquer resquício de dignidade deles.

Como é que o horror do "Big Brother" se tornou um programa televisivo de entretenimento, a ponto de se achar que ele pode ser “educativo”? Trata-se de uma ironia perversa. No Brasil essa ironia se amplia, porque o apresentador oficial do programa é um jornalista bem apessoado, culto, poeta nas horas vagas, conhecido por comandar entrevistas de arte e literatura. A simples existência do programa é um sintoma claro de que o nazismo não foi completamente derrotado e de que a previsão apocalíptica de Orwell vem se realizando ao menos em parte, e em parte importante: na televisão que invade todos os lares.

O programa é ainda mais poderoso do que os campos nazistas porque para eles as pessoas eram arrastadas à força, enquanto para o programa elas se oferecem aos milhares. Chamar o programa de “reality show” é mais uma ironia, porque a “realidade” que se oferece aos espectadores é toda construída artificialmente, quando se confinam pessoas desesperadas por fama e dinheiro para que delas aflore o que o ser humano tem de pior. Os participantes tornam-se cobaias de laboratório na mão ou no “olho” não apenas do apresentador como dos espectadores. Isso significa que o programa não afeta somente os participantes, tornando-os patéticos e deprimentes, mas principalmente os espectadores, tornando-nos torturadores virtuais.

Para finalizar, recorro às palavras revoltadas e iluminadas do jornalista Marcelo Migliaccio, do “Jornal do Brasil”: “alegrem-se, retardados mentais, sádicos, masoquistas e cínicos, o tratador acaba de abrir a porta da jaula para lhes dar sua ração anual de lixo perfumado. Vai começar o retrato mais nítido do apocalipse, o Big Brother Brasil 10.”

 

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