Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Você também é contra Paulo Coelho?

Gustavo Bernardo

Como na crônica passada falei contra o popular programa de televisão “Big Brother”, logo me perguntam se também sou contra o mais popular escritor brasileiro de todos os tempos, Paulo Coelho.

A comparação entre o programa e o escritor é inadequada. Não gosto do que ele escreve, mas não me vejo nem contra ele nem contra quem o leia. O “Big Brother” definitivamente faz mal, enquanto a literatura de Paulo Coelho não faz mal nenhum, ao contrário.

Não apenas é melhor lê-lo do que não ler nada, como sua leitura pode servir de entrada para textos mais elaborados. Para o sistema editorial brasileiro, então, o autor só faz bem, empurrando para cima as editoras, as livrarias e os outros livros, logo, todos que vivem nesse e desse mercado. Sua fama internacional é incontestável: em qualquer livraria do mundo os seus livros se exibem na porta de entrada, o que significa que vendem muito bem. Que um escritor brasileiro seja tão conhecido, e o seja sem explorar os clichês exóticos dos trópicos e do subdesenvolvimento, sem dúvida abre portas internacionais para muitos outros escritores brasileiros.

Como pessoa e figura pública, Paulo Coelho normalmente se comporta de maneira bastante digna. Apesar da riqueza, não a ostenta; apesar de apoiar ações sociais importantes, não se gaba disso a todo instante; apesar da popularidade, mostra interesse em ser lido e aceito pela elite cultural e universitária; apesar de realmente não ser aceito por essa elite, não responde às críticas que recebe nem com grosseria nem com ironia.

Como acho que ele não escreve bem, fico tentado a considerar que seu sucesso literário é puro efeito de mágica, ou seja, que Paulo Coelho seja realmente o mago que diz ser. Essa explicação, todavia, não explica nada. Esforçando-me mais um pouco, percebo esse sucesso literário como efeito de uma combinação feliz entre uma determinada “persona” muito bem construída e os temas desencavados pelo escritor.

O escritor busca os seus temas nas narrativas folclóricas e religiosas de vários povos, mas principalmente do povo árabe, não por acaso origem esquecida da civilização, da ciência e do pensamento ocidental. Seu romance mais popular, “O Alquimista”, é uma história milenar do folclore árabe. Ao mesmo tempo, ele constrói com habilidade a imagem de um “verdadeiro” mago medieval em pleno século XXI.

A combinação desses temas com essa imagem de si mesmo funcionou e tem funcionado muito bem, porque semelhante combinação atende à contradição do nosso tempo: ao mesmo tempo que a espécie humana tornou-se, graças à ciência e à tecnologia, mais poderosa do que nunca (tanto que pode exterminar a si mesma várias vezes seguidas), o ser humano como indíviduo percebe-se mais frágil do que nunca, sem conseguir entender nem as forças que desencadeou nem o seu próprio computador supostamente pessoal. Nessas condições, o apelo irracionalista de Paulo Coelho, combinando magia e sabedoria ancestral, ou seja, pré-científica, é atendido por milhões ao redor do planeta.

Todos esses argumentos aparentemente favoráveis autorizam não apenas que se leia Paulo Coelho, mas que se adote Paulo Coelho normalmente nas escolas e nas universidades? Ups, vamos com calma. Se não vejo problema que alguém leia Paulo Coelho, hesito muito em dizer o mesmo quanto a indicar seus livros para os alunos. Se isso for feito criticamente, mostrando toda essa discussão e seus problemas estéticos, pode ser uma ousadia interessante. Se, entretanto, isso for feito apenas para aderir a uma moda e assim também “comprar” os alunos com uma literatura fácil, o professor comete um erro crasso: ele abdica de pensar e de fazer pensar.

A adoção ou indicação de um romance pelo professor e pela escola é uma das formas mais fortes de legitimá-lo. Em outro momento podemos discutir porque a escola e os professores trabalham mal com autores de vanguarda, mas nesse momento essa discussão é impertinente. O escritor de que estamos falando encontra-se, esteticamente falando, na retaguarda: sua literatura é conservadora em termos morais e reacionária em termos estéticos. Indicar Paulo Coelho como se ele estivesse no mesmo nível de um Graciliano Ramos ou de um Érico Veríssimo presta um desserviço à formação mental e cultural dos alunos.

Para dizer isso, não sou daqueles que não leu e não gostou. Dei-me ao trabalho de ler alguns livros do nosso mago. Nessa leitura, à exceção de “O Alquimista” (que não é exatamente dele, como já expliquei), encontrei tramas superficiais, significados unívocos e frases pobres – sem contar os erros de português que ele não deixa os revisores corrigirem (porque a magia que faz o sucesso do livro pode se encontrar num desses erros!). Não há desafio na leitura porque não há qualquer enigma a desvendar nem qualquer ambiguidade que tire o leitor da sua perspectiva habitual. Nesse sentido, seus livros cabem perfeitamente na rubrica de “auto-ajuda” das livrarias: o leitor gosta porque escuta o eco da sua própria voz, a voz do senso comum e da moral vigente.

A questão mais grave, porém, reside justamente na imagem do autor, que se sobrepõe, gigantesca, sobre a sua obra – tanto que normalmente a capa dos livros mostra as letras do nome “Paulo Coelho” muito maiores do que as do título. Desse modo, o título e o próprio livro se tornam de somenos importância, quase que um detalhe irrelevante, porque o que se vende não é literatura mas sim a “persona” do autor – nesse caso, a “persona” de um mago tão bem sucedido que ainda por cima é milionário. Enquanto o escritor “de verdade”, digamos assim, desaparece atrás da sua obra, o que faz com sofrimento, Paulo Coelho não só não desaparece como aparece em todos os jornais e revistas do mundo. Milhões até compram os seus livros, concedo, mas duvido que de fato o leiam, porque o que realmente queriam comprar era uma “casquinha” dessa imagem mágica e bem sucedida do autor.

Como homem, no entanto, admiro o homem Paulo Coelho e sua inteligência; como escritor, confesso que morro de inveja dos números das suas vendas (quem me dera!); mas como professor acredito que o fenômeno “Paulo Coelho” possa até ser discutido na sala de aula, mas sua “literatura” (que agora ponho entre aspas) não deve ombrear com os livros que indicamos, se nós os indicamos porque eles nos fizeram pensar e porque, assim, queremos dar o que pensar a nossos alunos.

 

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