Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Como ler um texto literário? - I

Gustavo Bernardo

A pergunta supõe que haja uma maneira correta de ler um texto literário, já que existem especialistas e professores nesta aparentemente difícil e hermética (literalmente) tarefa.

O filósofo Vilém Flusser nos diz que há duas maneiras de ler literatura, ambas válidas e complementares. Gosto das orientações dele, mas a elas acrescentaria outras três, todas igualmente válidas – o que nos deixará com cinco modos de leitura.

Para a crônica de hoje, fiquemos com os dois modos de Flusser. Ele nos diz que se pode ler o texto literário ou como resposta ou como pergunta.

No primeiro caso, lemos literatura como a resposta do autor à pergunta que o seu tempo e os autores que o formaram lhe fizeram. Então, tentamos entender essa resposta, para o que se faz necessário, antes, entender a pergunta geradora. Relacionamos a obra do autor às questões e às obras do seu tempo e fazemos o Flusser chama de “crítica” e eu chamaria de “análise”.

No segundo caso, lemos literatura como uma pergunta para nós. Então, tentamos respondê-la, usando o texto como um pré-texto da nossa reflexão, isto é, do nosso próprio texto. Assim como o autor tentou responder à pergunta que lhe faziam, nós nos colocamos no lugar dele e tentamos responder à pergunta que ele nos faz, realizando o que Flusser chama de “especulação”.

As duas maneiras de ler não são excludentes nem puras. Ao criticar e analisar, acabo levantando algumas especulações novas. Para melhor sustentar minha especulação, recorro a alguma análise. Mas há quem prefira ler predominantemente de maneira crítica – essas pessoas tendem a escrever tratados sobre o assunto, procurando esgotá-lo. De outra parte, há quem prefira ler predominantemente de maneira especulativa – essas pessoas tendem a escrever ensaios sobre o assunto, procurando procurando explorá-lo e ampliá-lo.

Flusser e eu pertencemos decerto ao segundo grupo, mas precisamos ler os tratados produzidos pelo primeiro grupo – assim como os do primeiro grupo precisam ler, queremos crer, os nossos ensaios.

Qual modo de leitura a escola privilegia? Resposta fácil: a escola privilegia a leitura analítica, porque ela supõe controle da informação e do conhecimento. Entretanto, restringir-se a apenas este modo implica a impossibilidade de apreender o espírito dos autores que nos interessam e nos mobilizam – seu espírito de dúvida, de inquietação, de investigação e de invenção.

A leitura especulativa, porém, não deixa de ser igualmente arriscada. Ao admitir e mesmo valorizar a subjetividade do leitor e sua capacidade de também escrever o mundo, pode criar hordas de “viajantes de maionese”, isto é, de pessoas interessadas tão somente em dizer o que pensam, mesmo que mal pensem.

A solução, como sempre, é o diálogo. Os leitores especulativos precisamos ler muito atentamente os tratados dos leitores analíticos, para tentar controlar um pouco o nosso delírio reflexivo. De sua parte, os leitores analíticos precisam ler muito atentamente os ensaios dos leitores especulativos, para tentar controlar um pouco o seu delírio controlador e enquadrador.

Leitores não podem ser adversários uns dos outros. Leitores precisam ler uns aos outros. Somente assim todos os leitores, juntos, conseguimos manter acesa a chama da curiosidade, no meio de um mundo anestesiado e aparvalhado pelo culto da fama e de uma realidade reificada, isto é, coisificada e congelada debaixo de uma única perspectiva.

Para jogar mais lenha nesse foguinho, na próxima crônica acrescento aos dois modos de Flusser mais três outros modos, todos igualmente válidos e complementares: a leitura ingênua, a leitura crítica e a leitura teórica.

 

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