Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 24/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Como a ficção responde à pergunta 'quem sou eu?'?

Gustavo Bernardo

Uma das perguntas fundamentais do homem em todas as épocas é a pergunta sobre a sua própria identidade: quem sou eu? Essa pergunta é naturalmente um dos fundamentos da filosofia, mas também da literatura.

A pergunta “quem sou eu?” é uma pergunta deveras complicada: nós achamos que somos quem somos, mas só até nos perguntarmos quem somos. Na literatura, a questão se atualiza na construção dos personagens, duplos espelhados dos escritores e dos leitores, e no fenômeno estético da metaficção.

A metaficção é uma ficção que se pergunta ‘quem sou eu’ porque se funda na elaboração da própria ficção. Quando a ficção pergunta-se o que ela mesma é, cria um efeito perturbador no leitor, como se o levasse a se perguntar não apenas quem ele é mas também o que é a realidade.

É dessa perturbação e dessa relação perturbadora entre a literatura e a realidade que começo a tratar aqui. Começo fazendo-o através de uma conhecida imagem.

 

Nessa imagem, a mão esquerda desenha a mão direita que por sua vez desenha a mão esquerda. Duas mãos desenham com zelo uma à outra, aparentemente começando por si mesmas: as mãos já estão tão definidas que parecem sair do próprio desenho que elaboram, e elas agora se dedicam a preparar os punhos da sua camisa (como se só então começassem a desenhar o dono delas mesmas). O desenho dessas mãos encontra-se pregado por tachinhas num pedaço de cortiça – mas o pedaço de cortiça que sustenta o desenho é ele mesmo um outro desenho. As mãos que se desenham não estão completas, se ainda não terminaram de se desenhar, mas ao mesmo tempo compõem um quadro completo.

A imagem dessas mãos que se desenham a si mesmas é bastante conhecida. Ela remete a paradoxos importantes, como o de representar a complexidade através de uma ideia visual simples. Essa imagem é uma litogravura chamada, em holandês, de "Tekenenden handen" - em português, “Mãos que se Desenham”. Ela foi concebida em 1948 pelo artista holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972).

“As mãos de Escher”, como também são conhecidas, nos apresentam o enigma da metaficção. Essa ficção peculiar promove uma separação entre a linguagem e a realidade, isto é, explora a ideia de que a linguagem não representa ou “diz” a realidade, mas antes a inventa ou a reinventa.

A metaficção existe desde a primeira narrativa. O coro e o “deus ex machina” das tragédias gregas são soluções metaficcionais. Há quatrocentos anos atrás, o personagem Dom Quixote já criticava a narrativa das histórias de... Dom Quixote. Podemos definir metaficção como uma ficção que explicita sua própria condição de ficção. Esta ficção não esconde que o é, obrigando o leitor a manter a consciência clara de estar lendo um relato ficcional e e não um relato “verdadeiro” – obrigando o leitor, portanto, a manter-se em suspenso, ou seja, em estado permanente de dúvida e incerteza.

Isso acontece porque a obrigação da ficção não é a de dizer a verdade mas sim a de firmar uma verdade – diferença sutil, mas importante. O ato de “dizer a verdade” supõe uma e somente uma verdade prévia à ação de expressá-la, enquanto que o ato de “firmar uma verdade” supõe uma verdade possível entre outras, verdade esta que se constrói no momento mesmo em que se a expressa.

Nas palavras ligeiramente jocosas de William Gass, “a verdade, eu estou convencido, sente antipatia pela arte. É melhor quando um escritor tem uma profunda e persistente indiferença por ela, embora como pessoa a verdade possa ser vital para ele”. A verdade “mesma” é cinzenta, sensaborosa e, em última análise, inacessível, ao passo que a verdade do escritor é colorida, suculenta e intensa: “isso ilustra um princípio básico: se eu descrevo muitíssimo bem o meu pêssego, é o poema que fará a minha boca aguar... enquanto o pêssego real se estraga”.

A ficção que chama a atenção sobre a sua própria condição ficcional termina por levantar questões relevantes sobre as relações entre ficção e realidade e, em última análise, questões decisivas sobre a a realidade mesma. De acordo com Patricia Waugh, “ao criticar seus próprios métodos de construção, tais escritos não examinam apenas as estruturas fundamentais da ficção narrativa, eles também exploram a possível condição ficcional do mundo externo ao texto ficcional”. A reflexão teórica sobre a literatura se amplia, nesse caso, para uma reflexão filosófica sobre o mundo e a nossa existência nele.

Entre os esquemas metaficcionais, encontramos: 

  • romances sobre uma pessoa escrevendo um romance; 
  • contos sobre uma pessoa lendo um conto até se ver de repente dentro do conto que está lendo; 
  • histórias que comentam as convenções da própria história, como capítulos, títulos, parágrafos ou enredos; 
  • romances não-lineares que possam ser lidos não apenas do princípio para o final; 
  • notas de rodapé que continuam a história enquanto a comentam;  
  • romances em que o autor é personagem do seu próprio romance; 
  • histórias que conversam com o leitor, antecipando, frustrando ou ironizando suas reações à história; 
  • personagens que se preocupam seriamente com a circunstância de se encontrarem em meio a uma história de ficção; 
  • trabalhos de ficção que saem de dentro de outros trabalhos de ficção; 
  • histórias que incorporam aspectos e referências de teoria ou crítica da literatura; 
  • obras que criam biografias de escritores imaginários; 
  • enredos que sugerem aos leitores que eles se encontram em mundos tão ficcionais quanto aquele dos enredos.

A metaficção retoma o paradoxo do mentiroso, quando um cretense dizia que todos os cretenses são mentirosos: se ele estivesse dizendo a verdade, ele estaria mentindo, logo, não estaria dizendo a verdade; entretanto, se ele estivesse mentindo, ele estaria dizendo a verdade, logo, não poderia estar mentindo.

Pela reconfiguração moderna do paradoxo, um metaficcionista afirmaria que “todos os romancistas são mentirosos”, mas o faria com toda a sinceridade.

É essa mentira-verdade que me interessa. Vejamos, na próxima crônica, como o escritor argentino Julio Cortázar brinca com esse paradoxo.

 

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