Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Qual é a força da metáfora?

Gustavo Bernardo

Nas últimas séries do ensino fundamental, não é incomum se passar para o aluno uma longa lista de figuras de linguagem, divididas em figuras “de som” (como a aliteração, a assonância, a paronomásia), “de construção” (como a elipse, o zeugma, o polissíndeto, a inversão, a silepse, o anacoluto, o pleonasmo, a anáfora), “de pensamento” (como a antítese, a ironia, o eufemismo, a hipérbole, a prosopopeia, a apóstrofe) e “de palavra” (como a metáfora, a metonímia, a catacrese, a antonomásia, a sinestesia).

Bem, estas são as que coletei rapidamente num livro didático, creio que há muitas mais. A simples existência de uma ou várias listas leva o aluno a entender que realmente tem de decorar “isso tudo”, o que ele fará, se o fizer, de maneira forçosamente mecânica. Essas figuras, na verdade, designam momentos criativos em que o falante enriquece a língua e portanto o que pretende dizer. Decorá-las implica justamente a contradição (ou a antítese, se quisermos usar uma figura...) desses momentos criativos.

A lista das figuras de linguagem decerto lembra, aos alunos, a enciclopédia chinesa inventada por Jorge Luis Borges, intitulada “Empório celestial de conhecimentos benévolos”, que dividia os animais em: “(a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cachorros soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam feito loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, (l) etcetera, (m) que acabaram de quebrar o jarrão, (n) que de longe parecem moscas”.

A lista de Borges é a melhor caricatura de todas as listagens classificatórias, denunciando sua arbitrariedade.

Nos termos do ensino, antes de o aluno decorar tantos nomes ele deve brincar muito com as palavras até gostar de fazê-lo e, então, se interessar em saber o que está fazendo. Em termos teóricos, costumo reconhecer apenas quatro figuras: a metáfora, a metonímia, a ironia e o paradoxo (que não costuma aparecer nas listas escolares). Entretanto, ainda é possível reduzi-las à primeira: vejo a metáfora como a mãe de todas as figuras.

Como veem, precisei usar uma metáfora para definir a metáfora. Todavia, se eu quisesse me ater à lista do primeiro parágrafo, diria que recorri a uma prosopopeia – melhor ainda, a uma variante da prosopopeia chamada “personificação”. Ora, parece-me mais econômico, mais interessante e mais produtivo, para nossas reflexões sobre a língua, continuar a usar apenas o termo “metáfora” – e então refletir sobre a força da metáfora.

Quando percebo que apliquei um atributo da matéria, a força, a uma substância imaterial, a palavra ou o conceito de metáfora, sou forçado a concluir que a ideia de “força da metáfora” é novamente uma metáfora, mostrando-me que a metáfora é mais insidiosa do que parece.

Naqueles livros didáticos, a metáfora costuma ser considerada um mero recurso retórico, quando concentro a comparação entre dois termos no segundo: ao invés de dizer à minha namorada que ela parece uma rosa, chamo-a amorosamente de “minha rosa” (pode ser que esteja pensando menos na beleza da flor e mais nos seus espinhos, mas aí é outra coisa, outra metáfora).

No entanto, toda a linguagem pode ser percebida como metafórica, se nenhuma palavra é a coisa que designa. Para Wayne Booth, não apenas toda linguagem é metafórica, como toda a nossa vida não passa de uma metáfora. Para George Lakoff, a metáfora está infiltrada de tal modo na vida cotidiana que pensamos e agimos sempre a partir de metáforas básicas. Para Wallace Stevens, a realidade é um clichê do qual escapamos pela metáfora.

A última definição é interessante, porque “clichê” não deixa de ser uma espécie de metáfora. Logo, a frase de Stevens pode ser reescrita de maneira circular, assim: “a realidade é uma metáfora da qual escapamos pela metáfora”. Em consequência, podemos até escapar da realidade, mas não podemos escapar... da metáfora!

Essa constatação está de acordo com a célebre formulação de Friedrich Nietzsche, pela qual a verdade é “uma multiplicidade incessante de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, em síntese, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente elevadas, transpostas, ornamentadas, e que, após um longo uso, parecem a um povo firmes, regulares e constrangedoras”. As verdades seriam, ele continua, “ilusões cuja origem está esquecida, metáforas que foram usadas e que perderam a sua força sensível, moedas nas quais se apagou a impressão e que desde agora não são mais consideradas como moedas de valor, mas como metal”.

Deste modo, o que consideramos nossas verdades são, “na verdade”, catacreses, isto é: metáforas tão gastas pelo uso que não as reconhecemos como tal, do tipo “os pés da mesa” ou “os braços da cadeira”. Mesmo aquilo que entendemos como nós mesmos, ou seja, como nossa identidade, como nosso “eu”, ainda é uma metáfora existencial mais ou menos confortável.

Na definição milenar de Aristóteles, a metáfora é “uma coisa no lugar de outra coisa”. Digo “rosa” querendo dizer “amor” (ou “dor”). A metáfora surge sempre no lugar de outra coisa, precisamente daquilo que não se sabe - desse modo, fingimos que sabemos algo.

Se aceito o caráter metafórico de qualquer linguagem e discurso, preciso admitir que todo discurso é ficcional. Não é que “tudo” seja ficção, o que seria absurdo, mas sim que temos acesso ao real apenas através da mediação dos discursos. Todo discurso se aproxima da realidade (apenas se aproxima, nunca chega “lá”) através de ficções aproximativas, quer as chame “metáforas”, como na literatura, quer as chame “hipóteses”, como na ciência. Logo, como queríamos demonstrar, todo discurso é essencialmente metafórico. Nos termos de Alain Badiou: “nada pode atestar que o real é real, nada senão o sistema de ficção no qual ele virá a desempenhar o papel de real”.

Por isso, percebemos diversas regiões de sombra entre os significados que postulamos para as coisas e para os fenômenos. Essas regiões não são imóveis, ao contrário, elas se movem constantemente, razão pela qual não se consegue agarrá-las nem demarcá-las com facilidade. A metáfora tanto ilumina um objeto quanto dele deriva sombras, o que faz dela uma potência tão poderosa quanto ambígua.

Esta é a sua força.

 

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