Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Qual é a fraqueza da metáfora?

Gustavo Bernardo

Como vimos, a força da metáfora está no seu poder de nos aproximar da realidade e da verdade.

Entretanto, a metáfora também pode ser fraca? Sim. Em termos retóricos, diríamos que a fraqueza da metáfora se revela quando ela se transforma em catacrese, a saber: em metáfora gasta, tão gasta que já não é mais reconhecida como tal. Referimo-nos às “pernas” e aos “braços” da poltrona esquecendo-nos de que uma poltrona não tem pernas ou braços humanos, apenas suportes para ela mesma e apoio para os braços daqueles que nela se sentam.

A metáfora “catacrética” (ou caquética) das pernas e dos braços da poltrona não parece um problema para o discurso de ninguém, é verdade. Mas há muitas outras que se revelam muito perigosas para o pensamento, como, por exemplo, a metáfora do omelete.

Não conhecem a metáfora do omelete? Pois esta é clássica e se repete de tempos em tempos. Suponhamos um general norte-americano que decide lançar uma bomba de altíssima potência numa aldeia do Afeganistão para matar um terrorista muito perigoso. A ação é bem sucedida, o terrorista é morto – só que junto com ele matam-se dezenas de crianças. Confrontado por um subalterno ligeiramente escandalizado, o general recorre à famosa metáfora do omelete: “ora, não se fazem omeletes sem que se quebrem alguns ovos”.

É verdade, pensa o subalterno. De fato, para fazer uma omelete eu preciso quebrar alguns ovos, não há dúvida. Como não pensei nisso antes? E se acalma, feliz por ter aprendido uma nova lição de estratégia militar, sem atinar que a metáfora, sempre “uma coisa no lugar de outra coisa”, como bem definiu Aristóteles, neste caso põe “ovos” no lugar de “cabeças de crianças”. Parece, ao jovem oficial, mais divertido pensar nos ovos quebrados do que nas cabeças esmagadas das crianças nos colos das suas mães.

Minha querida leitora (como diria Machado de Assis), ficou dramático demais, até de mau gosto? Peço desculpas sinceras, mas creio que: primeiro, a dramaticidade se fez necessária para escancarar o mal que uma metáfora pode fazer para os corações e as mentes das pessoas; segundo, mau gosto teve o general ao misturar crianças e frigideiras.

A metáfora do omelete sofreu uma interessante variação, mais recentemente: a dos “efeitos colaterais”. Nesse caso, o general responderia, compungido, a seu subalterno: “a guerra sempre tem efeitos colaterais desagradáveis, mas inevitáveis”. Como quase sempre ele também sofre algum efeito colateral indesejável quando toma algum remédio, o jovem entenderia imediatamente, pensando apenas numa dor de cabeça passageira, ou numa azia idem. Novamente, ele não precisa pensar nas tantas crianças que nunca mais sentirão nenhuma dor de cabeça, que na verdade nunca mais sentirão nada, porque se tornaram parte dos “efeitos colaterais” de uma ação terapêutica-militar.

A fraqueza da metáfora também se revela, e de modo tão dramático quanto, quando ela se esquece de que é não mais do que uma metáfora. Ou melhor: quando aqueles que a usam passam a acreditar no que falaram ou escreveram como se já fosse uma verdade, pior, como se já fosse A Verdade.

O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, por exemplo, referia-se a Auschwitz como uma ficção, isto é, como uma espécie de metáfora. Aqueles que o conheciam, sabendo que toda a sua família fora assassinada pelos nazistas nos campos de concentração, escandalizavam-se com sua aparente minimização da importância da barbárie. Então ele precisava lhes explicar que ficções e metáforas são poderosas e, tantas vezes, perigosas.

A “Solução Final” dos nazistas fazia parte da sua ficção de que havia uma raça superior, naturalmente a sua, e que seria melhor para a humanidade se ela se constituísse apenas de representantes desta raça superior. Claro, se eu estou do lado da Verdade e os demais do lado da Mentira, tudo fica mais simples se acabarmos com a Mentira – para tanto, basta “apagar do mapa” (outra metáfora) aqueles que defendem a Mentira.

Os nazistas não atinaram que transformavam uma ficção racista, uma hipótese insustentável, numa Verdade intocável. A partir daí, escreveram uma das páginas mais sangrentas e mais estúpidas da História humana (não se pode nem afirmar que foi a mais sangrenta e estúpida, porque a concorrência é acirrada).

O problema não é que todo discurso seja ficcional, o problema se dá quando aquele que articula o discurso esquece do seu caráter ficcional e o oculta, transformando em Verdade. No momento em que se acredita na sua pobre ficção como a Verdade, a única Verdade, se está a um passo do preconceito e da humilhação, e a dois passos do assassinato e do genocídio.

Isso significa que não podemos escapar da metáfora, mas que ao mesmo tempo precisamos ter muito cuidado com as metáforas que usamos e, principalmente, com as metáforas que se usam contra nós.

 

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