Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 24/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Homem pode chorar?

Gustavo Bernardo

Para responder a esta pergunta fundamental, podemos ler um pequeno conto de Mia Couto chamado “Os machos lacrimosos”, que se encontra no seu livro intitulado “O fio das missangas”.

Se todo texto literário contém a sua própria teoria, só nos cabendo desentranhá-la das entrelinhas, o conto do escritor moçambicano explicita com todos os esses e erres a sua teoria sobre a catarse, respondendo afirmativamente à pergunta acima: sim, homem pode chorar, ou melhor: homem deve chorar!

Mia conta uma história aparentemente singela e ingênua sobre o próprio poder de se contarem histórias ingênuas e singelas. O cenário é o de um bar de Matakuane no qual reconhecemos um legítimo “boteco” brasileiro, ainda que a história não se passe no Brasil. Os nomes dos personagens misturam nomes tribais e apelidos tirados dos filmes americanos mais populares.

“Luizinho Kapa-Kapa”, por exemplo, mistura o diminutivo carinhoso com o sobrenome de guerra: aquele que capa, portanto castra, duas vezes!

“Silvestre Estalone”, por sua vez, é alusão óbvia aos personagens hiper-machões do ator Sylvester Stallone, em especial Rocky e Rambo.

No começo, os personagens se encontram no bar “por causa de alegrias”. De triste, basta a vida, diz o vulgo. É preciso rir e “bebemorar”. Se pudéssemos entrar no bar ou no conto e perguntar a seus frequentadores que tipo de filme eles preferem ver, sem dúvida apontariam primeiro os de ação e depois os que fizessem rir, ou seja, as comédias. Entretanto, a nossa experiência de espectadores e de leitores nos sugere que a alegria não é, como parece, um sentimento integrador.

O riso do bêbado no bar, que depois de um certo tempo sempre se transforma em choro convulsivo, mostra que a alegria pode ser, ao contrário, desintegradora – até porque via de regra o cômico parte de uma violência ou de um preconceito.

A situação cômica padrão é da velhinha escorregando na casca de banana e caindo sentada numa poça d’água. De fato, a cena é muito engraçada – menos para ela, decerto, que talvez tenha fraturado o quadril. Nós rimos da velhinha, ou de quem quer que tenha caído, em parte porque não fomos nós a cair (que alívio), em parte deixando escapar nossa agressividade instintiva contra o outro. Em consequência, o sentimento que sucede ao riso não é tão agradável quanto ele, misturando-se o alívio (da raiva liberada) à culpa (pela insensibilidade demonstrada).

A tristeza, ao contrário, nos deixa com a sensação de que por um instante podemos ser melhores do que de fato somos. A tristeza advinda da fruição de uma obra de arte, então, nos torna muito melhores do que somos, porque exercitamos sem constrangimentos o raro sentimento da compaixão. Essa sensação integradora, essa sensação de finalmente sabermos quem somos e, ainda, que não somos maus, empresta todas as condições para reflexões calmas sobre a nossa identidade, sobre o mundo e até mesmo sobre a divindade.

Nesse sentido, a tristeza se torna condição “sine qua non” do próprio pensamento, vale dizer, da própria filosofia.

É o que os personagens do bar descobrem, surpreendidos e encantados, a partir de uma história tristíssima contada pelo tal do Luizinho Kapa-Kapa. Quando Luizinho conta uma história tão triste que chega a “todaviar-se”, chorando como uma carpideira, os seus amigos de bar descobrem um prazer que não conheciam: o prazer de chorar. Mas, mais do que o prazer de chorar, descobrem o prazer inenarrável de “chorar junto”, isto é, de fazerem da experiência um ritual coletivo. Ouvir e contar histórias, de preferência bem tristes, logo se torna uma espécie de culto sagrado daquele grupo.

Homeopaticamente, a catarse das narrativas tristes purga os maus humores, expelindo-os junto com as lágrimas. Desta forma, todos se tornam melhores do que eram: preocupam-se com a própria família, preocupam-se com as suas mulheres, logo, ocupam-se dos afetos que justificam as suas vidas.

Ao fazê-lo podem filosofar, reconhecendo que “chorar é um abrir do peito” e que “o pranto é o consumar de duas viagens: da lágrima para a luz e do homem para uma maior humanidade”. Nas palavras de Kapa-Kapa: “a solução do mundo é termos mais do nosso ser”.

A lágrima nos lembra: “nós, mais que tudo, não somos água?” Se o nosso ser é essencialmente água, líquido e devir, porque escorre pelos dedos como as lágrimas pelas faces, ele só se deixa apreender integrado e integralmente quando choramos com o outro e pelo outro.

Como diz Mia Couto numa belíssima imagem, “a melancolia se instalara como toalha sobre a mesa” justo para permitir a narrativa que, por sua vez, permite o encontro consigo mesmo.

 

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