Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 22/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

Inicial » Colunas » Qual é o melhor método de educação?

Colunas

Qual é o melhor método de educação?

Gustavo Bernardo

Reconheço apenas um método de educação. O único método de educação que me parece válido não depende de nenhum recurso tecnológico nem de nenhum treinamento especial, pois se trata do ancestral método do exemplo.

O método do exemplo é válido para o ensino de toda e qualquer disciplina. No nosso caso, ensinamos língua e literatura – ou seja, ensinamos basicamente a ler e a escrever. Quem lê logo descobre que precisa ler mais: cada livro que lemos parece pedir a leitura de outros dez livros e assim por diante, em progressão infinita. Quem escreve logo descobre que nunca se aprende a escrever de uma vez para sempre: sempre se está aprendendo a escrever melhor, através da reescritura dos seus próprios rascunhos.

Estes devem ser os princípios reguladores da prática de um professor de leitura e escrita. Na verdade, os professores de todas as disciplinas também ensinam a ler (a pesquisar, a estudar) e a escrever (a relatar, a formular), sem o que nada ensinam. Por isso, o que digo aqui serve para todos nós. Todos lemos para ler e saber mais, todos escrevemos para escrever e pensar melhor. São esses os fundamentos que ensinamos e do que ensinamos.

Para ensinar esses fundamentos, antes de tudo é preciso dar o exemplo de maneira bastante explícita. De quase nada adianta dizer ao aluno o que ele deve fazer, é preciso mostrar como se faz e ainda mostrar que nós sabemos fazer e o fazemos bem. Na escola o lema da hipocrisia, “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”, simplesmente não funciona: o aluno capta o meu exemplo detrás das minhas palavras e o acaba seguindo, em especial se o exemplo for negativo.

Ensino a ler se e somente se leio cotidianamente e falo das minhas leituras para os alunos, associando-as sempre ao assunto da aula. Só assim transmito paixão e interesse quando indico ou cobro as leituras em sala; caso contrário, na melhor das hipóteses acabo ensinando que “ler é um saco”.

Ensino a escrever se e somente se escrevo cotidianamente e de algum modo mostro aos alunos o que esteja escrevendo. Só assim consigo ler de verdade as redações dos outros; caso contrário, na melhor das hipóteses torno-me apenas aquele que corrige erros de português mas não sabe estimular ninguém a escrever melhor.

Essas conclusões nascem da nossa experiência de sala de aula em já nem sei mais quantas décadas, mas são corroboradas pela melhor psicologia. Na relação pedagógica, como, aliás, em qualquer relação, o inconsciente do educador possui peso muito maior que todas as suas intenções conscientes.

Por isso Sigmund Freud incluía a educação entre as profissões impossíveis, ao lado da psicanálise e da arte de governar. As três atividades repousam sobre os poderes que um homem pode exercer sobre outro mediante a palavra, e as três encontram os limites de sua ação, em última instância, no fato de que não se submete o inconsciente – pois é ele que nos sujeita.

Toda “boa” intenção esconde seu avesso, toda instituição respeitável oculta sua sombra negativa, todo ser não enxerga seu próprio abismo. Não basta ao professor declarar-se competente ou intelectualmente honesto, ele precisa dar sempre o exemplo do que prega, até porque a única coisa que com certeza o aluno vai aprender virá deste exemplo, bom ou ruim.

O professor deve lutar contra os ditados populares que nos humilham, como o mais famoso deles: “quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Ou seu complemento especialmente preconceituoso: “quem não sabe nem ensinar, ensina educação física”. Ou suas variantes: “quem não dá para cientista, vira professor de Física; quem não dá para político, vira professor de História; quem não dá para escritor, vira professor de Português; quem não dá para mais nada, faz Pedagogia”.

E a melhor maneira de lutar contra esses ditados nefastos não é reclamando que os repeti nesta crônica, porque fiz isso de propósito, claro, e com um propósito claro: provocar os alunos dos nossos cursos de magistério a reagirem na prática a esses ditados, provando que eles se tornam cada vez menos verdadeiros.

Como se faz isso? Mostrando que fazemos o que ensinamos. Assim, recuperamos o sentido original da palavra “mestre”.

 

@2008-2017, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Todos os direitos reservados