Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 24/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Como o poeta pode ser um fingidor?

Gustavo Bernardo

O poema “Autopsicografia”, do poeta português Fernando Pessoa, é daqueles que muita gente sabe de cor – e por isso mesmo gosta de relê-lo, escutá-lo ou declamá-lo. Por isso, vamos lê-lo juntos – mas em voz alta, por favor:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Pergunto a meu leitor: quantas dores temos neste poema?

Vamos contar:

(1) a dor real do poeta, aquela que ele sente de verdade;

(2) a dor fingida pelo poeta a partir da dor verdadeira;

(3) a dor que o leitor lê no poema, que não é nem a que o poeta sentiu nem exatamente a que ele escreveu;

(4) a dor que o leitor sente ao ler o poema, diferente da dor que de fato sentia antes de ler o poema;

(5) a dor real do leitor, aquela que ele sentia antes de ler o poema.

Cinco dores, portanto. Qual delas é a mais verdadeira?

Num sentido, todas são verdadeiras. Em outro sentido, a mais intensa (e mais verossímil), para o poeta, é aquela que ele fingiu e escreveu, porque tem a forma que lhe deu, enquanto que para o leitor a mais intensa (e mais verossímil) é aquela que ele leu, porque esta lhe empresta a forma para o que sente, a qual, por sua vez, difere do que sentia.

À arte não importa a verdade imanente ou essencial da “coisa” mas sim a verdade subjetiva, isto é, a verdade do interesse e da emoção. O fingimento proposto pelo poeta para o leitor é mais verdadeiro do que o sentimento original, porque a dor fingida e então lida se torna uma dor que se pode reconhecer e com a qual se pode conviver. Desse modo, ela é sentida como mais viva e mesmo mais real do que a dor à vera. Fernando Pessoa é muito conhecido não só como autor de poemas antológicos como este, mas também como criador de vários “heterônimos”, isto é, de poetas fictícios com estilos próprios e diferentes do seu. Um deles é o romancista Bernardo Soares, autor do fabuloso “Livro do desassossego”. No fragmento 260 deste romance, Bernardo Soares explica em prosa os versos de “Autopsicografia”.

“A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exatamente o que eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.”

Sua definição de arte é exemplar: libertar os outros de si mesmos, isto é, levá-los a transcender os limites estreitos da sua individualidade. Para conquistar esta meta ambiciosa, o poeta precisa antes libertar-se de si mesmo e dos seus próprios sentimentos, transcendendo os limites estreitos da sua própria individualidade. A melhor metáfora deste processo são os heterônimos de Fernando Pessoa, que de a partir de si mesmo criou várias “pessoas”.

Depois de definir o que entende por arte, Bernardo Soares pede ao leitor que imagine sentir uma vaga tristeza. Se o leitor tentar traduzir essa emoção por frases sinceras e verdadeiras, quanto mais sinceras e verdadeiras elas forem, menos ele conseguirá comunicar sua emoção aos outros – no máximo, provocará constrangimento nas pessoas à volta.

Por analogia, peço eu ao leitor que experimente contar o sonho que teve nesta noite para todos os amigos com que encontrar: todos, sem exceção, escutarão constrangidos, entediados ou irritados, na melhor das hipóteses esperando impacientes que você acabe o seu sonho para eles poderem contar os seus e constrangê-lo também.

Ora, o sonho é uma espécie de emoção íntima, e como tal incomunicável. É por isso que precisamos pagar (caro) a alguém para ouvir os nossos sonhos. As emoções mais fortes e mais íntimas são igualmente incomunicáveis. E, se não há como comunicá-las a outros, continuará Bernardo Soares, seria melhor senti-las sem a escrever.

Se, todavia, o leitor deseja comunicar aquela emoção, aquela vaga tristeza que sente aos outros, “isto é, fazer dela arte, pois a arte é a comunicação aos outros da nossa identidade íntima com eles”, ele deve procurar qual emoção humana vulgar (ou seja, do “vulgo”, do povo) teria o tom e a forma daquilo que sente. Nesse instante o leitor pode perceber que a emoção que produz na alma vulgar uma sensação equivalente à sua pode ser, por exemplo, a saudade da infância perdida.

Leitor, essa é a chave para a porta do seu tema! Escreva e chore sua infância perdida; demore-se sobre os pormenores da mobília da velha casa da avó no subúrbio; evoque a felicidade de ser livre por não saber pensar nem sentir. Se esta evocação for bem feita como prosa, despertará no leitor uma emoção equivalente àquela que sentiu, e que aliás não tinha nada a ver com infância.

Isso significa, prezado leitor, que você mentiu? Não, significa que você compreendeu e ainda ajudou seu próprio leitor, por sua vez, a compreender. Porque:

“A mentira, salvo a que é infantil e espontânea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão-somente a noção da existência real dos outros e da necessidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela. A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e sutis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns aos outros, o que, com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer.”

Segundo Bernardo Soares, a verdade é não apenas não-toda, ou seja, não pode jamais ser completamente apreendida; ela é também intransmissível, incomunicável. Por isso, precisamos comunicar uma ficção da verdade “como se” ela fosse a verdade mesma. O fingimento, nesse sentido, é condição “sine qua non” da arte, da própria vida e, por extensão, de toda forma de amor:

“Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem for o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a prostituta, a quem compremos, amou, ao menos, o comprarmo-la. Não fugimos, por mais que queiramos, à fraternidade universal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.”

O trecho final do fragmento 260 do “Livro do desassossego” é forte. Fortíssimo, eu diria. O que Fernando Pessoa e Bernardo Soares nos dizem (ainda que o segundo não exista a não ser como uma criação do primeiro) é que, para tocarmos na compreensão dos outros, precisamos antes tornar-nos outros nós mesmos – precisamos “outrar-nos”, para usar o neologismo do próprio poeta. Em outras palavras, ao inventarmos a dor que deveras sentimos para falarmos com nossos semelhantes tão diferentes, inventamo-nos como outra pessoa e nos tornamos melhores do que de fato éramos.

Todo processo de sedução não passa por isso? João não tenta se mostrar como o homem ideal que Maria deseja para ela? E Maria não tenta se mostrar como a mulher ideal que João deseja para ele? E neste processo de sedução e fingimento não acontece de cada um deles se tornar mais parecido com o ideal um do outro, a ponto de se tornarem melhores do que eram antes?

Não é a essa bela ficção que emprestamos o nome de: amor?

 

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