Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 22/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Como se dá a mímese na mímica?

Gustavo Bernardo

As palavras explicam as palavras, como vimos relacionando a mímese da literatura ao mimetismo do camaleão. Podemos prosseguir neste movimento, relacionando a mesma mímese à mímica, outra palavra tão parecida quanto, na verdade também com a mesma raiz, e uma das mais nobres artes teatrais.

A palavra grega “mímese” foi traduzida primeiro como “imitação”. No entanto, uma imitação só será perfeita se não for perfeita. Para ilustrar este paradoxo, imaginemos, no domínio da mímica, um aluno debochado que imita para os colegas a maneira de seu professor andar e gesticular. Se ele imitar com absoluta fidelidade todos os gestos e movimentos do mestre, os colegas terão dificuldade em reconhecer o professor. Se, porém, ele selecionar dois ou três gestos típicos e imitá-los com esmero e exagero, ao mesmo tempo, descartando todos os outros movimentos, então logo a turma vai cair na gargalhada. A mímica ou mimetização do professor só vai funcionar se o jovem mímico souber construir, com o seu corpo, um outro professor, aquele que fará os colegas rirem sem vergonha (de preferência, quando o mestre não estiver na sala, a não ser que ele tenha um humor muito bom).

De maneira equivalente, a arte do poeta reside em cortar palavras. O poeta é um fingidor, como sabemos desde Fernando Pessoa; ora, um fingidor é um imitador. Todo imitador precisa selecionar rigorosamente seus meios de expressão, para passar a impressão de realidade. O imitador precisa resistir a imitar tudo o que vê, seja mímico ou seja poeta, caso contrário sua imitação não produzirá nenhum efeito. Para realizar um bom espetáculo, o mímico precisa resistir à tentação do espetáculo, o que é outro paradoxo. Para escrever um bom poema, o poeta precisa resistir à tentação das palavras, que compõem o seu próprio instrumento, e cortá-las o máximo possível.

A mímica é a arte de exprimir pensamentos e sentimentos somente por meio de gestos. O mímico não fala; ele utiliza apenas poucos movimentos corporais para se comunicar. Quando os atores representavam para centenas de espectadores sem contarem com microfones, por exemplo no teatro grego antes de Cristo, eles dependiam do corpo para passar suas mensagens e suas emoções. Eles precisavam ser todos mímicos. Na Idade Média, os atores da chamada “commedia dell'arte” recorriam frequentemente à mímica, criando personagens clássicos como o Arlequim. Bem depois, na época do cinema mudo, a comunicação entre os atores e o público também dependia de mímica. O maior ator desse período, Charles Chaplin, com o seu inesquecível personagem Carlitos, foi um grande mímico.

Após a Segunda Guerra Mundial, surge aquele que é considerado o maior ator de mímica de todos os tempos, Marcel Mangel (1923-2007), mais conhecido como Marcel Marceau ou Mime Marceau. De família francesa judia, Marcel Marceau teve o pai assassinado em Auschwitz e lutou na Resistência.

Inspirado em comediantes como Charlie Chaplin, Buster Keaton, Harry Langdon e nos “clowns” da “commedia dell'arte” italiana, além dos gestos estilizados da ópera chinesa e do teatro japonês Nô, Marceau criou, em 1947, seu personagem mais famoso: “Bip”, o palhaço de cara pintada, casaco listrado e surrado, chapéu de seda com uma flor espetada. Bip se tornou seu alter-ego, como o vagabundo Carlitos o era de Chaplin. Bip interagia com tudo, desde borboletas a leões, de navios a trens, nos salões ou nos restaurantes, e satirizava tudo, desde escultores a matadores. Seu espetáculo “Andando de Encontro ao Vento” inspirou o famoso passo de dança “Moonwalk”, de Michael Jackson, que aliás se tornou seu amigo. Do seu espetáculo “Juventude, Maturidade, Velhice e Morte”, um crítico disse: ele faz em menos de dois minutos o que a maioria dos escritores não faz em dez volumes. Como atuou até o século XXI, o leitor pode encontrar muitos vídeos de suas apresentações no Youtube.

Marcel Marceau, nas poucas vezes em que falou, era preciso e poético, como quando disse que, se um mágico transforma o visível em invisível, o mímico transforma o invisível em visível. Ora, para transformar o invisível em visível, é preciso recriar meticulosamente o real, provando mais uma vez que a mímese é, antes de tudo, invenção.

 

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