Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 22/11/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

A filosofia ajuda a literatura?

Gustavo Bernardo

Literatura e filosofia são primas tão próximas que às vezes se abraçam como irmãs, mas em outros momentos brigam como gata e rata.

Um bom exemplo dessa relação conflitiva encontramos no começo da filosofia, há muitos e muitos anos: o filósofo grego Platão escrevia como um poeta dos melhores, mas ao mesmo tempo defendia que os poetas fossem expulsos da sua república ideal, por forçarem a aceitação das aparências e se renderem às paixões.

O filósofo é por definição um amante da adequação absoluta entre a palavra e a coisa – uma rosa é uma rosa, uma cadeira é uma cadeira –, enquanto o poeta é por definição aquele que mostra que a palavra pode dizer sempre outra coisa, ou seja, que a palavra pode ser uma metáfora – a rosa como um gesto de amor, a cadeira como um símbolo do poder. Entretanto, o mesmo rigor que leva o filósofo a procurar a adequação absoluta da palavra com a coisa o leva a perceber que esta adequação foge dele como o horizonte escapa de quem o persegue.

A literatura mostra, a filosofia investiga. Literatura e filosofia, no entanto, fazem a mesma pergunta ao mundo: por que tem de ser assim e não assado? Literatura e filosofia, ambas, evitam as certezas e os dogmas, porque se fundam sobre a pergunta. A ficção também é uma maneira de pensar, ao negar a realidade imediata para adiante recuperá-la esteticamente. A filosofia também é uma maneira de inventar a realidade, ao tirar o chão das certezas com suas perguntas.

Alguns poetas caminharam da poesia para a filosofia, como Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, Machado de Assis e João Guimarães Rosa. Alguns filósofos fizeram o caminho contrário, da filosofia para a poesia, como Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Vicente Ferreira da Silva e Vilém Flusser. Como parte do segundo grupo, Ludwig Wittgenstein ensinava: “convém fazer filosofia como poesia”.

Luiz Costa Lima, professor da UERJ, toca no centro do problema: “os grandes escritores podem dar a impressão de serem filósofos porque poesia – no sentido amplo do termo – e filosofia habitam terras vizinhas: são formas de pensar o mundo e não de operacionalizar o domínio de um certo objeto”. O centro da questão é a intenção do domínio: pensar o mundo filosófica ou poeticamente implica todo o contrário de controlá-lo. Poetas e filósofos abdicam da pretensão do controle para recuperar a sensação primordial do espanto perante o mundo e os outros.

Um dos personagens mais fortes da literatura brasileira é uma excelente representação do filósofo. Trata-se de Riobaldo Tatarana, o narrador e protagonista do épico de João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. Em carta para o pensador brasileiro Vicente Ferreira da Silva, Guimarães Rosa lhe pede para ler o Grande sertão menos como literatura, antes como “sumário de ideias e crenças do autor, com buritis e capim devidamente semi-camufladas” – ou seja, como filosofia.

O narrador Riobaldo conta sua história para alguém que não aparece nunca, apenas o escuta. Esse alguém bem pode ser o próprio leitor. Toda a narrativa de Riobaldo é atravessada pela contradição e pela pergunta. O nome do protagonista já é uma contradição: “baldo”, a parede que barra as águas de um açude como se fosse um balde, se contrapõe ao “rio” que escorre nas páginas e na paisagem, rompe todas as barreiras e impede toda definição definitiva.

“Eu quase que nada não sei.” É o que confessa Riobaldo, ecoando o Sócrates de “só sei que nada sei”, o Francisco Sánchez de “que de nada se sabe” e o Michel de Montaigne da pergunta “que sei eu?”. Mas Riobaldo prossegue seu auto-questionamento, definindo numa só frase tanto filosofia quanto literatura: “Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”. A literatura e a filosofia, antes de mais nada, desconfiam daquilo que nos dizem que é a realidade. É duvidando sem parar que Riobaldo se assume como filósofo: “e me inventei neste gosto, de especular ideias”.

O leitor fica tão fascinado com a narrativa e as reflexões de Riobaldo que tem dificuldade de perceber que o personagem representa tanto o bem quanto o mal: afinal de contas, trata-se de um jagunço que atirava, chefiava e matava muito bem... No decorrer do romance, são duas as suas grandes dúvidas: se fez ou não fez um pacto com o Diabo; e por que um homem arretado como ele sentia amor e desejo por Diadorim, seu companheiro de armas.

Para esse companheiro, faz uma belíssima declaração: “Diadorim é a minha neblina”. No entanto, ele sofre por todo o romance, sem realizar esse amor tão proibido, para só no final perceber que não precisava sofrer tanto. Diadorim morre no combate com o vilão, Hermógenes, que matara o seu pai. Quando vão limpar o corpo dele para o enterro, descobrem que Diadorim era na verdade “ela”, isto é, que Diadorim era na verdade Maria Deodorina, a menina que sempre se vestiu de menino para seguir o pai e, mais tarde, vingá-lo. Quando a neblina de Riobaldo se desfaz, só lhe resta fazer o luto do amigo que descobria, já tarde demais, ser mulher.

O pacto com o Diabo nasce na primeira palavra do romance: “nonada”. Ao juntar “no” com “nada” numa só palavra, Rosa transforma uma expressão metafórica de lugar numa expressão substantiva. “Nonada” pode ser o Diabo ele mesmo, porque nós é que transformamos a ausência em presença e aquilo que não existe em algo mais forte do que tudo o que exista. Não há nada. Ou, dizendo de outro modo: só há, para nós, o que decidimos que existe. Deste modo, a ficção se torna mais forte e mais clara do que a realidade, porque desta é que sabemos muito pouco, literalmente quase nada.

O escritor sempre se mostrou um filósofo da linguagem, como ao dizer que “o idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas”, ou que “somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo”. Escrever, para ele, era o único meio de realizar a essência, isto é, “a língua calada dentro da gente”. A palavra, como o Diabo, tem rabo: “dificultoso, mesmo, é um saber definir o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”.

O Diabo também é o outro nome da obscuridade necessária, do enigma que precisa permanecer enigma. Guimarães Rosa defendia que as traduções de seus livros mantivessem as passagens obscuras: “antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Precisamos também do obscuro”. Em outras palavras, as minhas: precisamos proteger o enigma e não resolvê-lo, justamente para preservarmos o espanto que nos garante que estamos vivos.

É essa coragem de encarar o enigma e o nada, típica da filosofia, que autoriza Riobaldo a dizer que a “natureza da gente não cabe em nenhuma certeza” e que, tanto quanto o Diabo, “Deus existe mesmo quando não há”. Riobaldo fala como outro filósofo, Miran Bozovic, que afirmava: “amamos Deus precisamente porque Ele não existe”. Se amamos sobretudo o que nos falta e não há, antes de mais nos faltam as certezas e as respostas.

O Diabo é a pergunta, ou seja: tudo o que queremos saber.

Deus é a Resposta, ou seja: tudo o que não sabemos.

Ou ainda e melhor, na fórmula delicada da escritora Adriana Lisboa: “o amor é uma dúvida. Como Deus.”

 

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