Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Como posso sonhar um sonho impossível?

Gustavo Bernardo

O adjetivo “quixotesco”, informa o dicionário Aurélio, designa aquele que é “ingênuo, romântico, sonhador”, ou aquele que “se envolve em trapalhadas”.

O dicionário Houaiss define o termo como o atributo de alguém “generosamente impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade”.

Para o dicionário Caldas Aulete, ser quixotesco implica ser “ousado, irrealista, utópico”.

De acordo com o Merriam-Webster Online Dictionary, quem é quixotesco mostra-se “tolamente despido de espírito prático, sobretudo quando se dedica aos ideais”.

The American Heritage Dictionary oferece a seguinte definição: “envolvido na aventura romântica de proezas e dedicado a alcançar metas inatingíveis”.

Os espanhóis preferem “quijote” como substantivo, que o Diccionario de la Real Academia Española define como “o homem que antepõe seus ideais a sua conveniência e trabalha em defesa de causas que julga justas, sem consegui-lo”.

À exceção do dicionário espanhol, todas as definições mostram o adjetivo “quixotesco” como essencialmente negativo. Ser quixotesco implica se situar entre o simpático e o patético, caindo mais para o lado do patético. As ações quixotescas são grandiosas mas não chegam a termo, no melhor dos casos, ou realizam o oposto do que pretendiam, no pior dos casos.

Os espanhóis veem Dom Quixote como um personagem heroico porque ele é realmente o seu herói nacional, pelo menos em termos imaginários. Nós outros o vemos antes como um louco patético porque nos deixamos contaminar pelas adaptações literárias para jovens, aquele crime de lesa-literatura de que falei na crônica anterior.

Nos dois volumes da história original, Dom Quixote enfrenta 40 combates, vencendo 20 e sendo derrotado nos outros 20. Fica claro que Cervantes, seguindo a lição do seu mestre cético, Erasmo de Rotterdam, queria equivaler derrota a vitória, relativizando uma e outra.

Entretanto, as adaptações para jovens esquecem as vitórias quixotescas e só falam das derrotas, reforçando a imagem patética do personagem para melhor recalcar suas características heroicas. A riqueza do personagem reside em ele não ser só isto ou aquilo, ou seja, em ser ao mesmo tempo patético e heroico, louco e sábio, forte e fraco, criança e velho.

Mas, para contrabalançar a ênfase negativa das adaptações juvenis, falemos hoje apenas do Dom Quixote herói do sonho impossível, como ele aparece, por exemplo, no musical “O Homem de La Mancha”, escrito por Dale Wasserman.

Esse musical foi representado primeiro em 1965, na Broadway. Sua versão brasileira estreou no Brasil em 1972, com Paulo Autran, Bibi Ferreira e Grande Otelo nos papéis de Dom Quixote, Dulcineia e Sancho Pança. O filme “O Homem de La Mancha” estreia também em 1972, com Peter O'Toole, Sophia Loren e James Coco nos mesmos papéis (esse filme pode finalmente ser encontrado no Brasil em DVD).

O tema do musical e do filme é a música “An Impossible Dream”, de Mitch Leigh e Joe Darion, mais conhecida entre nós, na voz de Maria Bethânia, como “Um Sonho Impossível”, na versão de Chico Buarque e Ruy Guerra. Vejamos, lado a lado, as duas versões:

 

AN IMPOSSIBLE DREAM

Joe Darion & Mitch Leigh

 

To dream the impossible dream,

to fight the unbeatable foe,

to bear with unbearable sorrow,

to run where the brave dare not go.

 

To right the unrightable wrong,

to love pure and chaste from afar,

to try when your arms are too weary,

to reach the unreachable star.

 

This is my quest,

to follow that star –

no matter how hopeless,

no matter how far.

 

To fight for the right

without question or pause,

to be willing to march into hell for a

heavenly cause.

 

And I know if I'll only be true to this

glorious quest

that my heart will be peaceful and calm

when I'm laid to my rest.

 

And the world will be better for this,

that one man scorned and covered with scars

still strove with his last ounce of courage

to reach the unreachable stars.

UM SONHO IMPOSSÍVEL

Chico Buarque & Ruy Guerra

 

Sonhar mais um sonho impossível,

lutar, quando é fácil ceder,

vencer, o inimigo invencível,

negar, quando a regra é vender.

 

Sofrer a tortura implacável,

romper a incabível prisão,

voar no limite improvável,

tocar o inacessível chão.

 

É minha lei,

é minha questão,

virar esse mundo,

cravar esse chão.

 

Não me importa saber

se é terrível demais,

quantas guerras terei de vencer

por um pouco de paz.

 

E amanhã, se esse chão que eu beijei

for meu leito e perdão,

vou saber que valeu

delirar e morrer de paixão.

 

E assim, seja lá como for,

vai ter fim a infinita aflição

e o mundo vai ver uma flor brotar

do impossível chão.

 

Ouso afirmar: quem se lembra dessa música numa versão ou na outra, na voz de Peter O’Toole, de Paulo Autran ou de Maria Bethânia, se emociona. Gostaria então de comparar os versos das duas versões, na verdade para valorizar ambas.

A primeira estrofe, no original, nos convida a: sonhar o sonho impossível; lutar contra o inimigo imbatível; suportar a dor insuportável; estar onde nem os mais corajosos ousam ir.

Na versão brasileira, a primeira estrofe é semelhante à do original, mas: se refere a mais um sonho impossível; no lugar da luta contra o inimigo invencível, propõe já vencê-lo!; não fala em suportar a dor insuportável (que aparecerá na segunda estrofe), mas sim em lutar quando é mais fácil ceder; no lugar de estar onde os bravos não ousam, acrescenta a ideia de negar ao invés de se vender (se corromper).

A segunda estrofe original convida a: consertar o erro inconsertável; amar de modo puro e casto, e de longe; tentar mesmo quando os braços estejam muito cansados; por fim, alcançar a estrela inalcançável.

A segunda estrofe brasileira modifica completamente as imagens, convidando-nos a: sofrer uma tortura terrível (quando recupera o terceiro verso da primeira estrofe); romper uma prisão na qual nem se cabe lá dentro; voar no limite mais improvável; enfim, tocar o chão a que nem acesso se tem. Devido à necessidade da rima em “ão” com “prisão”, a estrela inalcançável, lá no firmamento, se substitui pelo chão aqui mesmo, ainda que inacessível.

A terceira estrofe, no original, determina: para aquele que canta, esta é a missão; para seguir a estrela, não importa que o faça sem esperança; não importa quão longe a estrela, isto é, o seu ideal, se encontre.

A terceira estrofe, na versão brasileira, transforma “quest” em “questão”, embora a tradução correta fosse “busca”, “procura” ou “missão”, e a partir daí segue a metáfora do ideal como “chão” e não como “estrela”, determinando: para aquele que canta, esta é a lei e a questão, a saber: virar esse mundo (de ponta-cabeça) e cravar esse chão (com a sua bandeira, ou seja, com o seu sonho).

A quarta estrofe, em inglês, estabelece a necessidade de: lutar pelo certo, pelo direito, sem dúvidas ou pausas, mostrando-se disposto a marchar até mesmo para o inferno, desde que a causa pela qual se lute venha do céu.

A quarta estrofe, em português, recupera da terceira estrofe original a ideia de “no matter”, isto é, não importa saber “se é terrível demais”, opondo a seguir “guerras” a “paz” no lugar de “inferno” a “céu”. Mantém-se assim a noção ética de fazer a coisa certa a qualquer custo, mesmo a custo pessoal.

A penúltima estrofe, na versão original, encaminha o prêmio maior para aquele que canta o sonho impossível: sentir-se fiel a si mesmo por ser fiel à sua gloriosa missão, de modo a que seu coração mantenha-se calmo e em paz na hora do seu descanso final, ou seja, na hora da sua morte.

A penúltima estrofe, na versão brasileira, faz uma bela combinação da ideia do descanso final com a sua metáfora anterior do chão, aceitando que: se o chão que beijou como ideal, lá na segunda estrofe, for o seu túmulo, isto é, seu “leito e perdão”, então o cantador pode saber que “valeu”, condensando num verbo só o reconhecimento de ter sido fiel a si mesmo, para desse modo morrer da paixão pela qual viveu.

A última estrofe, por fim, originalmente assegura que: o mundo será melhor do que este que aí está; um homem desdenhou das cicatrizes que o cobrem, mostrando-se superior a seu próprio sofrimento; esse homem ainda recorreu à sua última grama (ou onça) de coragem para alcançar as estrelas que não se podem alcançar.

A última estrofe, na versão de Chico Buarque e Ruy Guerra, conclui de maneira bem diversa à do original, sem se referir a um mundo melhor ou ao homem que quis o inacessível, preferindo apostar no paradoxal fim de uma infinita aflição e na visão de uma flor brotando de onde não poderia fazê-lo.

A versão brasileira termina assim nos remetendo à flor de Carlos Drummond de Andrade: Drummond nos conta, no seu poema “A flor e a náusea”, que uma flor desbotada e feia iludiu a polícia para nascer na cidade, furando “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Chico e Ruy, dessa maneira sutil e suave, trazem a música de Mitch Leigh e Joe Darion para o campo da literatura brasileira, como que a incorporando, junto com a força do personagem quixotesco, ao imaginário nacional.

Agora seria interessante que o leitor procurasse, na Internet, a música nas versões inglesa e brasileira, bem como vídeos de diferentes cantores e cantoras que a escolheram para comover suas plateias – além de Maria Bethânia, Simone e Paulo Autran, no Brasil, poderá escutar Andy Williams, Jennifer Hudson, Robert Goulet, Diana Ross, Donna Summer, Placido Domingo, Frank Sinatra e até mesmo Elvis Presley, em interpretação antológica no ano de 1972, no Madison Square Garden, em New York.

Se, ao escutar a canção nessas diferentes vozes, sentir uma lágrima brotar, como a flor, saiba que ela nasce ao lado das minhas e de tantos que choraram ao ouvir esta música de louvor ao sonho impossível.

 

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