Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Por que tanta ironia?

Gustavo Bernardo

Essa pergunta pode ser feita em duas circunstâncias: ou por uma pessoa magoada com as ironias dos outros, ou por um candidato preocupado com a recorrência de perguntas sobre ironia nas provas de vestibular.

No primeiro caso, trata-se da conhecida “ironia cruel”, quando esse recurso retórico é usado para desconsertar, ofender ou humilhar aquele que sofre a ironia. Um exemplo simples é o do professor “ligeiramente” (aqui teríamos um interessante “adjunto adverbial de ironia”, se houvesse esta categoria na gramática) grosseiro que, ao ouvir comentário impertinente de seu aluno, responde com um falso elogio do tipo: “mas como você é inteligente!”. Naturalmente, o professor quer dizer o contrário: “mas como você não é nada inteligente!”.

O problema desta ironia, como de resto das demais de que vamos falar, é que todos os interlocutores precisam reconhecer e entender a ironia, senão ela não funciona. O aluno acima pode ser tão pouco inteligente que acabe achando que foi de fato elogiado e, então, acabar se achando realmente “o” inteligente.

O mesmo problema acontece nas ironias visuais, por exemplo nos cartuns dos jornais. Vejamos o cartum de Laerte, publicado recentemente na Folha de São Paulo:

É uma imagem fortemente irônica, mas para entendê-la o leitor precisa conhecer: [1] a história da ditadura no Brasil; [2] o que significa a sigla DOI-CODI; [3] o papel do seu comandante; [4] a luta política recente por uma comissão da verdade que aponte os responsáveis pela tortura no período; [5] o artigo nada brilhante que o senhor Brilhante Ustra escreveu, defendendo que sob o seu comando não havia tortura. O leitor ainda precisa perceber a ironia visual, que sugere tanto aquele período de trevas históricas quanto uma iluminação do personagem semelhante à de uma situação de tortura.

No segundo caso, o do candidato preocupado com a recorrência de perguntas sobre ironia nas provas de vestibular, posso afirmar que essa recorrência não constitui nenhuma crueldade, mas sim uma prova da importância deste recurso de linguagem. Toda a linguagem, e não somente a linguagem da ficção, é atravessada por metáforas, muitas das quais nos passam desapercebidas. A habilidade para compreender e mesmo utilizar a ironia ajuda muito a entender os textos e as imagens tanto de ficção quanto de não-ficção.

A ironia é um tipo específico de metáfora porque, assim como a metáfora, ela também diz “uma coisa no lugar da outra”. Eu posso dizer “flor” querendo dizer “amor”, assim como o professor acima diz “inteligente” querendo dizer “nada inteligente” e o desenhista põe o suposto comandante da tortura à luz da própria tortura. Devemos distinguir, no entanto, a ironia barata, típica daquele professor grosseiro, da ironia cara, que é também auto-ironia.

Quando um judeu, à época do nazismo, conta que um agiota judeu mordeu um pastor alemão, ele inverte a expectativa do interlocutor em todos os sentidos: [1] o cão da raça pastor alemão é que deveria morder as pessoas, mas é mordido por uma pessoa; [2] os alemães é que estavam mordendo (e matando) os judeus, e não o contrário; [3] o cão da raça pastor alemão é na verdade uma metáfora dos alemães que se diziam membros da raça pura e por isso matavam aos milhões as pessoas de raça judia; [4] o judeu que mordeu o (cão) alemão é representado pelo clichê pejorativo pelo qual são vistos todos os judeus, isto é, o de um agiota feroz.

A ironia da piada judaica é a arma da sua agonia, atingindo tanto a si mesmo como a seu algoz. Ao voltar-se sobre si mesma, a ironia mostra o quanto o forte se mostra fraco, ao oprimir o fraco, e o quanto o fraco pode ser forte, ao reagir com a única arma de que dispõe: a palavra irônica.

A auto-ironia se mostra paradoxal, como vemos na sentença de Miguel de Unamuno: “o supremo triunfo da razão consiste em duvidar da sua validade”. O que ele nos diz é que consegue a maior vitória justamente aquele que não acredita inteiramente na vitória, mesmo se já se encontra em cima do pódio. Logo, o supremo triunfo da razão reside na sua habilidade de proteger-se de si mesma, isto é, de resistir à tentação de “ter razão” (porque razão não se “tem”, razão se usa). Essa mesma ideia vi enunciada num outdoor há alguns anos: “perder no futebol para o meu neto: isso sim é que é vitória!”.

É preciso ser irônico, ou seja, é preciso negar para afirmar, inclusive negar-se para afirmar-se, como insiste Edgar Morin: “todo pensamento é fraco quando se crê forte, mas se fortifica quando descobre suas fraquezas”. Ou Nietzsche: “o melhor autor é aquele que se envergonha de se tornar escritor”. O gesto de se pôr ironicamente em dúvida é defendido também por Ortega Y Gasset: “ser artista é não levar a sério o homem tão sério que somos quando não somos artistas”.

Os paradoxos irônicos, ao nos desconcertarem, lembram que as palavras não são as coisas: elas apenas sugerem as coisas. Como nos ensinaria um monge zen: “quando um dedo aponta para a lua, a lua não está no dedo; quando as palavras apontam para a verdade, a verdade não está nas palavras. A linguagem é apenas um meio de expressar fatos. Quem insiste nela abre mão da verdade e ficará confuso para sempre”.

Esse caminho nos leva a perceber que nem sempre a ironia é sequer humana. Quantas vezes não reconhecemos ironia no destino? O exemplo que me ocorre é literário, nem por isso menos dramático: trata-se da história do personagem Riobaldo, do romance “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa.

Riobaldo é um jagunço muito macho, o melhor atirador do seu grupo, mas se apaixona por outro jagunço do seu grupo, chamado Reinaldo, também conhecido como Diadorim. Riobaldo entra no bando só para ficar perto de Reinaldo, enquanto Reinaldo só quer matar o assassino do seu pai, o terrível Hermógenes. Riobaldo sofre durante anos e seiscentas páginas este amor tão proibido. Por fim, Reinaldo consegue matar Hermógenes, mas morre no mesmo combate.

Na hora em que limpam o corpo de Reinaldo para ser enterrado, descobrem que ele não era ele, mas ela: “Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha... Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim!”

Reinaldo, ou Diadorim, era Maria Deodorina, que se vestia de homem desde menina para acompanhar o pai e, depois, para vingar a sua morte. Riobaldo lamenta em uivos a ironia do seu destino: mesmo no contexto violento do sertão, seu amor era possível – mas ele só sabe disso depois da morte de Diadorim.

Logo, para melhor compreender os outros, a si mesmo e o destino, é preciso antes compreender a ironia.

 

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