Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Por que a literatura é tão estranha?

Gustavo Bernardo

Talvez fosse melhor inverter a pergunta acima e perguntar por que a realidade é tão estranha. Ou por que a verdade tantas vezes se mostra tão pouco parecida com a verdade, isto é, tão inverossímil.

Ambas as constatações acontecem quando prestamos atenção, ou seja, quando por um instante não deixamos o hábito pensar por nós. De acordo com meu filósofo preferido, o tcheco Vilém Flusser, “o hábito é a camada de algodão que encobre os fenômenos e ameniza as rebarbas”.

O costume, que permite perceber informações, passa ele próprio desapercebido. O hábito, que permite transformar ruídos em informações, não informa nada. Habituo-me com aquele velho, louco mas inofensivo, na esquina da minha rua, até não percebê-lo mais. Talvez estranhe um pouco, apenas, quando ele não estiver mais ali, embora não chegue a me perguntar se ele já morreu de fome, de doença ou da loucura.

A literatura de ficção, para usar um pleonasmo comum, recorre à linguagem habitual de todo dia para usá-la de maneira nada habitual. Por isso, ela fratura o hábito e nos força a prestar atenção, tanto nela mesma quanto na realidade.

Quando prestamos atenção na linguagem da literatura, vemos o quanto não apenas a literatura é estranha, mas também o quanto toda linguagem é estranha: sempre se diz, ao mesmo tempo, mais e menos do que se queria dizer, nunca exatamente o que se queria dizer. Essa constatação perturbadora nos leva a perceber que só temos acesso à realidade através das linguagens, o que por sua vez nos leva a entender, a contragosto, como a realidade é estranha.

Como é estranho que haja velhos loucos e abandonados na rua. Como é estranho que o velho louco, mas inofensivo, da minha rua, não passe mais pela minha rua.

Em 1917, por estranha coincidência no mesmo ano da revolução russa, um teórico russo chamado Viktor Chklovski criou o termo “ostranenie” para designar o efeito da literatura. O termo foi traduzido em português, justamente, como “estranhamento”.

Chklovski criou o termo para melhor discordar de um crítico ucraniano chamado Aleksandr Potebnia, que entendia que a função da arte é a de explicar o desconhecido pelo conhecido. Para o russo, ao contrário, a função da arte é a de mostrar o que conhecemos como falsificado pelo hábito, o que significa dizer que de fato não conhecemos o que pensamos conhecer. Desse modo, a arte provoca um estranhamento tal que nos leva a singularizar as coisas para melhor prestar atenção nelas.

O método da arte, para provocar semelhante estranhamento, “consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção”. Esse método nos leva a perceber o que vemos ou lemos não da maneira cotidiana, mas sim de modo mais intenso e prolongado. A arte adia o entendimento o máximo que pode, digamos assim, para ampliar a nossa compreensão interna das coisas como se assim pudéssemos sentir como essas coisas poderiam ou podem ser, e não como elas supostamente já são.

O argumento nos empresta algumas alternativas para a tradução do termo russo “ostranenie”. A tradução mais usada é mesmo a de “estranhamento”, mas também podemos pensar, no seu lugar, nas opções “singularização”, “desfamiliarização”, “desalienação”, “desautomatização” ou mesmo o neologismo “estrangeiramento”.

Exploremos um pouco tais opções para entender um pouquinho melhor por que a literatura é tão estranha.

A literatura “singulariza” a nossa percepção ao se mostrar a cada instante como nova, única, singular, ainda que a disciplina “literatura” tente classificar as ocorrências literárias segundo as regras generalizantes de outra disciplina – em geral, a História.

A literatura “desfamiliariza” o seu contexto e o dos leitores para nos tirar o chão (deixando-nos sem-chão, ou “bodenlos”, como diria aquele filósofo) e nos forçar a nos reequilibrarmos em superfície instável e sempre diferente.

A literatura “desaliena” porque nos desloca da nossa condição alienada de funcionários que funcionam tão somente em função de aparelhos ideológicos, sociológicos e tecnológicos, desse modo devolvendo-nos a nossa própria singularidade.

A literatura “desautomatiza” todos os nossos condicionamentos de robôs, isto é, de homens-que-já-não-são-mais-homens, forçando-nos a nos reprogramarmos nós mesmos, para assim, quiçá, nos reencontrarmos através dos personagens que a ficção nos empresta para voltarmos a sentir a nossa própria persona.

A literatura nos “estrangeiriza” quando nos leva a entender, por fim, que somos estrangeiros no mundo e no tempo: pertencemos menos a uma pátria do que a uma infância e vivemos menos o presente do que o desejo de um lugar que não há, ou seja, o desejo de uma utopia.

 

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