Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

A leitura deve ser obrigatória?

Gustavo Bernardo

A importância da leitura parece incontestável. Ziraldo costuma repetir que ler é melhor do que estudar. Como professor, concordo com ele. Estudar muito não leva necessariamente ao hábito da leitura, e pior, não leva necessariamente a bons resultados nas provas e nos concursos. Em contrapartida, o hábito da leitura ajuda muito tanto a estudar quanto a ter bom desempenho nos testes de avaliação, justo porque grande parte desse desempenho depende de saber ler os textos e os enunciados das questões.

Estudar muito, de maneira mecânica e acrítica, na melhor das hipóteses prepara o aluno para a própria escola, deixando-o despreparado para a vida e para o trabalho fora da escola. Quem lê bastante, no entanto, escolhe suas leituras e assim aprende tanto a escolher quanto a pensar, habilitando-se a resolver qualquer problema que a vida ponha na sua frente, quer na escola quer fora da escola.

Quem lê muito não costuma discriminar gêneros, “traçando” desde bula de remédio até poesia e romance, sem deixar de passar pelas histórias em quadrinhos e pelas notícias de jornal. A leitura de textos literários mostra-se especialmente refinada, porque sempre leva o leitor a acompanhar os acontecimentos narrados por outra perspectiva que não a sua: ou a do narrador ou a do protagonista. A habilidade de ver as coisas por uma perspectiva diferente da sua é fundamental para resolver quaisquer dilemas que se apresentem em casa, na sala de aula, na rua, no laboratório, no escritório ou no palácio do governo. Essa habilidade se aprende e se estimula com a leitura de ficção.

Estas considerações podem levar o leitor mais apressado a concluir que a leitura na escola deve ser totalmente livre e voluntária. Como já chamei esse leitor de “apressado”, os demais, bons leitores, perceberam que não concordo com a conclusão. Nos anos 70 do século passado, defendeu-se a leitura por prazer: os alunos só deveriam ler o que gostassem. Hoje em dia, para tantos adolescentes isso significaria ler apenas mensagens de twitter. Na verdade, a escola deve sim encontrar várias formas de promover o hábito da leitura, mas sem abdicar de indicar regularmente algumas leituras obrigatórias.

A oposição “prazer X obrigação” é improdutiva. Primeiro, porque a escola não é um lugar natural de prazer; não há como a escola competir com a praia, por exemplo. Convenhamos, a praia é bem mais agradável. Segundo, porque a liberdade absoluta não leva ao prazer, mas sim à inércia, ou pior, ao terror. Como disse um escritor, “todo prazer viceja à sombra da dor”, vale reconhecer, da luta, da dificuldade, da superação, da conquista. Terceiro, porque o professor deve ele mesmo conquistar o aluno para o livro, o que não fará se deixá-lo à mercê da própria vontade. O professor conquista o aluno quando o provoca, quando o desafia, principalmente quando não se demite do seu lugar de professor.

Logo escuto a contestação: mas muitas aulas de literatura fazem com que o aluno passe a detestar literatura! Admito. Entretanto, isso acontece não porque as leituras que o professor passe sejam obrigatórias, e sim porque o próprio professor não transmite o mínimo entusiasmo com os livros indicados, em alguns casos extremos nem leu o que indicou. O único método de educação que presta, já escrevi isto um milhão de vezes, é o do exemplo. Só ensina a ler quem lê muito e mostra que lê muito.

O professor que manda ler mas ele mesmo não lê há muito tempo ensina tão somente o seu próprio desapreço pela leitura. O professor que manda ler textos literários mas só admite a sua própria leitura e interpretação ainda não entendeu que a literatura é por definição plurissignificativa, admitindo múltiplas perspectivas. O professor que é também um leitor entusiasmado estimula no aluno a reflexão e o questionamento sobre o que lê, ou seja, estimula no aluno o refinamento da sua própria perspectiva.

Não é obrigatório que o aluno ao final goste da leitura obrigatória, mas sim que goste da reflexão, da discussão, do debate, da provocação. Um dos melhores elogios que recebi foi quando, décadas atrás, adotei "Lucíola" no ensino médio e um aluno me disse depois que continuava “odiando” José de Alencar mas tinha “adorado” as aulas, justamente por causa das discussões.

Em resumo: a leitura obrigatória é obrigatória sim, desde que o professor mostre seu entusiasmo com as leituras que indica. A leitura literária deve ser tratada como tal, explorando sempre sua capacidade de nos permitir ver pela perspectiva do outro. A leitura obrigatória deve ser acompanhada de outras formas de estímulo à leitura, a serem inventadas pelo professor e pelos alunos.

 

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