Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Quem tem medo da ficção?

Gustavo Bernardo

Como demonstramos em outras crônicas, o ser humano necessita de uma dose forte de ficção todos os dias, de preferência na veia. Não por outra razão, dormimos para poder sonhar por um terço do dia, enquanto nos outros dois terços passamos mais tempo caraminholando fantasias na mente do que realmente atentos à tal da realidade à nossa volta.

O atendimento a essa necessidade existencial não se dá sem graves conflitos internos e sociais. O garoto pouco dado à cultura e à leitura assiste a um filme do James Bond e protesta logo na cena inicial que ela é mentirosa demais, como se ele não tivesse pago para assistir a um filme... de ficção. Quando regimes fascistas e seitas religiosas fundamentalistas querem atacar seus adversários ou todos aqueles que consideram infiéis, começam por queimar seus livros, no alto da pilha os livros de ficção, para logo passarem a queimar as pessoas.

Em O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes já ironizava essa tendência, ao fazer seu protagonista ser visto como louco porque ele teria lido romances de cavalaria demais. No entanto, o romance do Cavaleiro da Triste Figura é o maior de todos os romances de cavalaria já escritos. Cervantes assim escreve um romance contra os romances só para mostrar como os romances são os mais importantes livros do mundo. No célebre capítulo da biblioteca, os amigos de Dom Quixote, incluindo um religioso que representa a violenta Inquisição espanhola, se reúnem para queimar os seus livros mas acabam mostrando que também leram todos aqueles livros e, pior, os admiram.

A ficção assusta porque ela põe sob suspeita tudo aquilo que conhecemos como realidade. A ficção incomoda porque ela planta a dúvida no meio das nossas mais caras certezas. A ficção desequilibra porque ela mostra como as nossas verdades mais importantes não deixam de ser ficções inconscientes ou involuntárias, ficções que não se assumem como tal.

Mesmo a certeza de que “eu sou eu” é uma ficção – necessária, senão desesperamos, mas ainda assim uma ficção. Não reconheço minha voz em uma gravação. Não reconheço meu rosto em uma fotografia. Se me contemplar no espelho por mais de um minuto, também não me reconheço, percebendo-me primeiro como estranho, depois como esquisito, logo feio, de repente horroroso, por fim monstruoso. Na verdade, é perigoso se olhar no espelho por muito tempo, como mostram os contos de Machado de Assis e Guimarães Rosa que têm “O Espelho” por título.

Como este ser chamado “eu” e que não sabe quem é pode saber como é a realidade que o envolve? Enredamo-nos presos na nossa limitadíssima perspectiva, que só pode ser superada quando conseguimos olhar pelo olhar do outro. Na vida chamada real, essa façanha é quase impossível. Ela se torna possível, porém, quando acompanhamos por dentro a perspectiva ora do narrador ora do protagonista de um romance: conseguimos enfim olhar pelo olhar do outro. Por isso se diz que a literatura perspectiviza: ela nos oferece a riquíssima experiência de vivenciarmos perspectivas diferentes da nossa.

Dessa maneira, tornamo-nos outros. Dessa maneira, tornamo-nos maiores e melhores do que somos. Só então, paradoxalmente, sabemos quem somos.

 

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