Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

O que é um conceito?

Gustavo Bernardo

Os dicionários trazem muitas definições da palavra “conceito”.

Conceito pode ser sinônimo de pensamento: “isso não entra no meu conceito”. Ou compreensão de uma palavra: “seu conceito de moral é antiquado”. Ou o equivalente da reputação de uma pessoa: “ela não goza de bom conceito”. Ou, ainda, forma de se referir à avaliação escolar: “só tira conceito A”.

Em filosofia, o conceito é “a representação mental de um objeto abstrato ou concreto”. Para André Comte-Sponville, “o conceito é uma ideia abstrata, definida e construída com precisão: é o resultado de uma prática e o elemento de uma teoria”.

O conceito, portanto, é uma construção ou uma elaboração. Quem constrói ou elabora um conceito, torna-se responsável por ele. Essa responsabilidade é dividida com quem usa o conceito elaborado por outrem, assim como uso o conceito de “conceito” elaborado por Comte-Sponville.

Essa responsabilidade demanda que se faça manutenção constante do conceito, refinando-o e elaborando-o melhor a cada vez que se retorna a ele, assim como fazemos a manutenção permanente de uma casa ou de uma obra, para que ela não se deteriore. Posso dizer, então, que o conceito é um work in progress, ou seja, um trabalho em progresso constante, demandando sempre mais trabalho do pensamento e do discurso.

Para o filósofo Hans Blumenberg, no livro Teoria da não conceitualidade, o conceito “constitui um produto da razão, se não é exatamente o seu triunfo”. Mas triunfo sobre o quê?, pode-se perguntar. Talvez sobre a percepção e os sentidos, pode-se responder. Enquanto os sentidos nos dizem o que se encontra aqui e agora, a razão especula sobre o que possa estar lá e acolá.

Quando o homem se torna bípede, passa a ver mais longe. Exatamente por isso, passa a querer ver mais longe ainda, mesmo onde sua vista não alcance. Ele quer olhar para cima e ver o céu estrelado. O ser humano é a criatura da actio per distans, a saber, da ação à distância. Por isso mesmo, “não é acidental que a história da ação humana seja dominada pelas máquinas de arremesso e de tiro”.

O homem lida com objetos e possíveis presas que, todavia, não percebe. Por isso, desenha nas paredes de pedra da caverna objetos que não estão ali, porque são os objetos do seu desejo e da sua luta pela vida. Os desenhos na pedra são a imagem no lugar da coisa: encontram-se no lugar dos animais que ainda não foram caçados. Logo, os desenhos na pedra são os primeiros conceitos.

O conceito é uma armadilha simbólica. Construo uma armadilha orientado pela forma e pelo tamanho, pelo modo de se comportar e de se mover da presa que desejo capturar. Enquanto construo a minha armadilha, porém, a presa ainda não se encontra presa dentro dela. A minha armadilha constrói um vazio que pretende, no futuro, conter a presa que desejo prender. Como me encontro distante da presa no espaço e no tempo, construo a armadilha que pretende trazer o que desejo para perto de mim, tanto no tempo quanto no espaço.

A armadilha, diz Blumenberg, “é uma ação na ausência tanto da presa como também, com transferência temporal, do caçador. A armadilha atua para o caçador no momento em que, estando ele ausente, a presa está presente, ao passo que a confecção da armadilha mostra as relações invertidas”. Por isso, “a armadilha é o primeiro triunfo do conceito”.

Quando o homem se levanta sobre as duas pernas, amplia seu campo de visão mas não fica satisfeito. Ele levanta também a cabeça para olhar as estrelas no céu escuro, pensando que armadilhas pode construir para capturá-las, bem como aos demais mistérios do cosmos – por exemplo, o mistério do amor.

Tenho uma vaga noção do que seja o amor, resultado das minhas experiência e educação. Quero saber o que é o amor para mim. Preciso então construir uma armadilha simbólica que ao mesmo tempo atraia o amor e o capture, contendo-o nas suas paredes. Essa armadilha é o conceito de amor.

O amor capturado nesse conceito, entretanto, parece inquieto dentro da minha armadilha. Ele se mexe e se rebela, testando a resistência das paredes da armadilha até o dia em que consiga rompê-las. O amor que se liberta já se tornou diferente daquele amor que capturei, porque aprendeu a sair da armadilha. Preciso então construir outra armadilha, isto é, um conceito mais elaborado, para capturar novamente o amor.

Sabe-se, desde o trabalho do sociólogo Niklas Luhmann, que a ideia do amor como paixão é uma construção relativamente recente, datando do fim da Idade Média. Antes, casava-se por obrigação e por imposição familiar, não porque as pessoas se apaixonassem. A paixão até acontecia, mas nas relações fora do casamento. Amavam-se amantes, não cônjuges.

Os escritores dos primeiros romances de amor são os pedreiros da reconstrução do conceito “amor”. A literatura captura uma nova espécie de amor, logo, ensina uma nova forma de amor. A literatura reelabora o conceito de amor.

Na verdade, a metáfora que constitui a literatura é o próprio conceito, devidamente lapidado, bem como vice-versa: o conceito é a própria metáfora, devidamente lapidada. Ao articular campos distantes de significado, comparando, por exemplo, conceito a armadilha e abstrato a concreto, a metáfora não apenas captura o imprevisível e quiçá o inominável, mas também o domestica.

A domesticação, todavia, não é permanente. A fera, ou seja, a coisa, se encontra sempre prestes a se rebelar e se tornar... outra coisa.

Como posso, por exemplo, construir um conceito de mundo?

O filósofo Ludwig Wittgenstein define “mundo” de maneira sinteticamente brilhante: “o mundo é tudo o que acontece”. Sua definição parte não da noção de espaço, mas sim da noção que temos de tempo. Para ele, “mundo” não é o planeta que me envolve, mas sim os acontecimentos que me cercaram, cercam e cercarão.

O filósofo Hans Blumenberg também tem uma boa definição de “mundo”: “o mundo é o lugar geométrico de todos os pontos”. Assim como Wittgenstein constrói uma elaborada metáfora temporal para definir o mundo, Blumenberg elabora uma interessante metáfora espacial.

Entretanto, ele mesmo não gosta muito da sua definição, preferindo esta outra: “mundo é uma expressão com a qual a tentativa de encontrar as regras de determinação das palavras está constitutivamente condenada ao naufrágio”.

Nesta definição, ele questiona sua própria vontade de definir todas as coisas, devidamente representadas pelo mundo. Ele leva seu questionamento até à metáfora do naufrágio, vale dizer, até a necessidade de voltar à tona para redefinir todas as coisas. Isto acontece porque “a razão desperta as expectativas do entendimento e, ao mesmo tempo, as frustra”.

Entre o momento em que quase se realiza o entendimento e o momento em que se admite a frustração da compreensão, caminha a humanidade pensante, amante e errante.

 

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