Revista do Vestibular da Uerj
Uerj DSEA SR-1
Rio de Janeiro, 23/09/2017
Ano 9, n. 25, 2016
ISSN 1984-1604

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Colunas

Em que consiste o paradoxo da avaliação?

Gustavo Bernardo

Há um antigo ensinamento oriental sobre a arte dos arqueiros que pode nos ajudar a entender o paradoxo da avaliação.

Diz o Mestre Zen ao arqueiro: se você quer acertar o alvo, você acerta o alvo. Se você, no entanto, quer acertar o alvo e ganhar o concurso de tiro ao alvo, você na verdade tem dois alvos: o alvo mesmo e a medalha de 1º lugar. Como não há meios de acertar dois alvos ao mesmo tempo, a sua flecha se perde no meio deles e não acerta nem um nem o outro.

A pequena parábola se refere à habitual confusão humana entre o presente e o futuro.

Hoje, eu quero acertar o alvo com a minha flecha. Se acertar o alvo, ganho um prêmio. Se ganhar o prêmio, fico famoso. Se ficar famoso, os homens desejarão ser meus amigos e as mulheres brigarão para se casarem comigo. Se isso acontecer, serei o homem mais feliz do mundo. Ora, então só tenho que acertar aquele alvo.

Entretanto, meu coração e minha mente já estão no futuro, naquele dia em que serei o homem mais feliz do mundo, cheio de medalhas, amigos e mulheres. Quando ponho a flecha no arco, reteso a corda e olho fixamente para o alvo, já não o enxergo mais direito: muitos alvos se sobrepõem, embaçados e misturados. Suando frio, solto a flecha, que passa longe do alvo e de repente até acerta um espectador inocente.

Por que essa narrativa pode nos ajudar a entender o paradoxo da avaliação?

Deixemos o arqueiro desolado no seu canto e pensemos naquele aluno que estuda muito porque quer ser o primeiro da classe. Com frequência, esse tipo de aluno fica tão nervoso na hora da prova que fracassa, embora saiba mais do que os colegas.

Quando esse aluno se torna candidato ao vestibular de medicina, concorrerá com dezenas de candidatos para uma vaga. Ele está mais preparado do que os demais, mas, se na hora do exame ele pensar demais naqueles que ele precisa superar, acaba errando as questões mais fáceis, ou ficando tão inseguro que até marca a opção certa mas depois a "corrige", optando pela errada.

Pensemos agora naquele programa de pós-graduação, preocupadíssimo com a avaliação da Capes. Como sabemos, as notas da Capes vão de 1 a 7. Aquele programa está com a nota 5, que é uma nota boa, mas quer chegar logo ao 6, quem sabe ao 7, reservada a programas de excelência. O programa cria então uma comissão de recredenciamento que exclui os colegas de menor produção acadêmica naquele momento. Na hora da avaliação da Capes, porém, a nota do programa não só não sobe para 6, como desce para o 4, que não é uma nota boa. O programa é rebaixado, perdendo prestígio, bolsas e verbas.

O que aconteceu? A fixação pela nota 6 cegou os gestores do programa, que não perceberam que a média da produção docente do programa sempre foi muito boa. Os problemas do programa residiam na desorganização interna e na baixa produção discente. Quando o programa descredenciou colegas que naquele momento tinham menos publicações, deu dois tiros, um em cada pé: primeiro, porque, por acaso, atingiu os colegas que mais gostavam de estimular os alunos a publicar; segundo, porque criou um ambiente autoritário, excludente e desagradável entre os professores, ambiente este nada propenso à reflexão, à investigação e à invenção.

Claro, aquele aluno e este programa são hipotéticos. Servem-nos, porém, para visualizarmos o paradoxo da avaliação. Em que consiste esse paradoxo? Ora, avalia-se para se selecionar os melhores ou para que as pessoas e as instituições melhorem. Quando a preocupação com a circunstância da avaliação perturba os melhores e faz com que seu desempenho seja pior, forma-se o paradoxo: o processo de avaliação seleciona os piores e faz com que as pessoas e as instituições piorem.

Se o escritor passa a vida sonhando em ganhar um prêmio literário modesto (como por exemplo o prêmio Nobel), não consegue escrever sequer um miniconto. Suas flechas verbais nunca acertam nenhum alvo. Isso acontece porque quem é avaliado não tem qualquer controle sobre quem avalia. Àquele que é avaliado só cabe fazer o seu melhor, segundo o seu próprio critério, deixando o trabalho de avaliar para o avaliador.

Bem, isso seria óbvio, se fôssemos todos muito seguros e soubéssemos muito bem quem somos. No entanto, instituições e pessoas com frequência introjetam dentro de si mesmas o Avaliador, assim maiúsculo, que então se torna uma espécie de Monstro, igualmente maiúsculo. Para recorrer a um velho clichê, tais instituições e pessoas tornam-se mais realistas do que o Rei. Com medo de serem punidas, discriminadas ou rebaixadas, apressam-se em punir, discriminar e rebaixar a si mesmas.

Já disse, algures, que toda avaliação é injusta – inclusive toda aquela que faço, como professor. Já disseram alhures, bem alhures, que ninguém pode julgar ninguém. Precisamos, no entanto, continuar avaliando e julgando, assim como precisamos continuar nos submetendo a avaliações e julgamentos. Para não incorrer no risco de acertar uma flecha no espectador inocente ou um tiro nos nossos próprios pés, ou seja, para não incorrer no paradoxo da avaliação, são necessárias a ironia e a ataraxia.

Quem avalia precisa ser no mínimo autoirônico, desconfiando publicamente das suas próprias avaliações. Quem é avaliado, por sua vez, precisa manter aquela tranquilidade soberana que os gregos chamavam de ataraxia: comemorar muito a cada vez que faz o melhor que podia, e apenas sorrir levemente a cada vez que os outros concordam que de fato está bom, muito bom.

 

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